Festeiros preservam tradição do Banho de São João no rio Paraguai

A principal noite do Arraial do Banho de São João, no Porto Geral de Corumbá, no domingo, 23 de junho, consolidou a força popular da festa e marcou um passo fundamental para que a manifestação obtenha o Registro de Bem Imaterial Nacional.

Foi o ápice das comemorações ao santo. As mais de 100 famílias de festeiros, que desceram a ladeira Cunha e Cruz para banhar a imagem de São João nas águas do rio Paraguai, preservaram a tradição e a própria história do povo desta cidade.

Quem foi ao Porto Geral assistiu ao cortejo com as passagens por baixo dos andores e reverências entre festeiros no encontro na ladeira, que leva para o batismo do santo nas águas do rio Paraguai. Todos os componentes históricos da festa, singular no País e que já é Patrimônio Imaterial de Mato Grosso do Sul, tiveram sua clara manifestação. Cururueiros, com suas violas de cocho, deram o tom da celebração, que contou ainda com elevação do mastro de São João ao som de uma tradicional roda de Cururu e Siriri.

À zero hora – já desta segunda-feira, 24 de junho -, uma queima de fogos iluminou o circuito da festa anunciando a chegada do dia de São João Batista, que segundo a Bíblia, batizou Jesus Cristo nas águas do rio Jordão. Nessa hora também, na prainha do Porto Geral, famílias inteiras de festeiros e devotos do santo mantinham o ritual de “lavar a alma” nas águas do principal rio pantaneiro.

O prefeito Marcelo Iunes destacou que a festa “a preservação da história, memória, cultura e tradição valem o empenho do Município em garantir estrutura para o Banho do São João nas águas do rio Paraguai”. O Arraial do Banho de São João – que este ano teve como tema “Um banho de fé e alegria” – foi organizado pela Prefeitura Municipal de Corumbá e contou com apoio do Governo do Estado. A festa foi realizada de 20 a 23 de junho, no Porto Geral, com shows musicais, barracas com comidas, bebidas e doces típicos, além de apresentações culturais, concursos de andores e quadrilhas juninas.

O ritual

O ritual do “batismo” de São João tem influências portuguesas. Organizado pelas comunidades, com o passar do tempo incorporou o cururu e siriri, ritmo e dança presentes às festas indígenas e africanas. E são os festeiros os principais responsáveis pelo espetáculo. Eles mantêm viva a maior e mais autêntica festa junina do Brasil Central. Este ano, a Prefeitura certificou 101  festeiros do Banho de São João como agentes de preservação cultural. São eles que organizam o ritual.

Segundo historiadores, a tradição do Banho de São João foi introduzida na região por volta de 1882. O ato de levar a imagem do santo em procissão ao Porto Geral, uma das referências históricas da cidade, é movido pelas crendices, superstições e fortes emoções. Dizem os mais antigos que o banho renova as forças do santo e abençoa tudo o que se relaciona a água com o homem.

A louvação ao santo tem dois momentos marcantes, durante a procissão pelas ruas da cidade. Ouve-se primeiro a ladainha: “Deus te salve João/Batista sagrado/O teu nascimento/Nos tem alegrado”. Logo, a banda imprime um ritmo carnavalesco e o povo pula de alegria, cantando: “Se São João soubesse que hoje era o seu dia/ Descia do céu à terra/Com prazer e alegria”. Durante o banho, o povo entra na água, toca a imagem, se percebe a religiosidade dominante. Aos gritos de “Viva São João”, escuta-se batuque da umbanda na beira do rio, anunciando a presença de entidades num grande terreiro. Os pagadores de promessas se ajoelham com emoção e fé fervorosa. O andor retorna para a casa do festeiro, subindo a Ladeira, onde é tradição cumprimentar quem desce.

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