MP aponta ex-chefe do DOF como integrante de esquema para facilitar entrada de cigarro ilegal vindo do Paraguai

Uma investigação do Ministério Público (MP) mostrou como agiam oficiais da cúpula da Polícia Militar, na facilitação do contrabando de cigarros vindos do Paraguai. Um coronel, quatro tenentes-coronéis e um major estão no banco dos réus por supostamente terem recebido propina para integrar uma organização criminosa. O inquérito faz parte da terceira fase da Operação Oiketicus, que investiga a corrupção de policiais no contrabando de cigarros em Mato Grosso do Sul desde 2018. A nova fase recebeu o nome de “Avalanche”.

De acordo com as investigações, participavam do esquema criminoso o coronel Kleber Haddad Lane, ex-chefe do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), em Dourados, os tenentes-coronéis Carlos da Silva, que comandou a PM em Dourados, Jidevaldo de Souza Lima, então major em Sidrolândia, Josafá Pereira Dominoni, sub-comandante da Polícia Rodoviária e Wesley Freire de Araújo, que comandou a PM em Amabai e depois no município de Naviraí, além do major Luiz Cesar de Souza Herculano, em Coxim.

Após a Operação Oiketicus ser deflagrada, a Polícia Federal descobriu que PMs estavam envolvidos nos crimes – todos eles em cargo de comando. Conforme o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), o coronel Kleber, que foi chefe do DOF entre os anos de 2017 e 2019, era apelidado pelos contrabandistas como o “cacique águia” e o “bicho”.

Para o Ministério Público (MP), esses apelidos faziam referência ao símbolo do DOF, além da posição que ele ocupava como comandante. A denúncia do Gaeco aponta que o coronel recebeu quantias sem origem que passaram de R$150 mil, além de “depósitos sem identificação”. Conforme a denúncia, “a análise de dados fiscais revelou que em agosto de 2017, ele adquiriu uma propriedade rural em Aquidauana no valor de R$ 205 mil, pagou à vista, sem que gerasse qualquer decréscimo em seu patrimônio declarado – indicando a origem criminosa do bem”.

O Gaeco também desconfiou da ligação do coronel com outro policial, o sargento Ricardo Campos Figueiredo, condenado por integrar a organização criminosa que contrabandeava cigarros e que está preso desde 2018. Pela denúncia, Kleber recebia “quantia mensal” e “era responsável por partilhá-la com os demais integrantes do esquema, possivelmente com instâncias superiores, que lhe davam suporte no cargo”.

A denúncia ainda aponta que “malas de dinheiro eram transportadas para Campo Grande” e “um dos responsáveis por fazer isso era o sargento Campos Figueiredo”. A relação entre Lane e Figueiredo ficou ainda mais evidente porque Kleber foi testemunha de defesa do sargento na ação em que ele foi condenado. Lane afirmou em depoimento que Campos Figueiredo o “ajudou a conquistar sua promoção ao posto de coronel”. Meses depois, na decisão do juiz, a condenação concluiu que o “sargento PM Ricardo Campos Figueiredo era um dos responsáveis por colocar policiais corruptos em pontos estratégicos dentro da polícia militar para garantir a permanência do esquema criminoso”.

Em Amambai e Naviraí, municípios do sul do estado, o contrabando também foi beneficiado. Só que por outro comandante, o tenente-coronel Wesley Freire de Araújo. Para o MP, ele é citado como “comandante Amambai” em troca de mensagens dos contrabandistas para receber R$ 20 mil em propina. De acordo com a denúncia, os contrabandistas possuíam “listas de propina” onde constavam “PM Amambai”, com valores de R$ 176,5 mil e R$ 150 mil e “Comandante de Amambai” com valores de R$ 20 mil e R$ 15 mil.

Pela denúncia, “ao assumir o comando do batalhão em Naviraí, uma de suas primeiras ações foi trocar o efetivo da agência local de inteligência – ali, reconhecidamente atuante no combate ao contrabando de cigarros”. Araújo ainda “trocou agentes capacitados e reconhecidos pela honestidade por policiais que, na maioria, não possuíam expertise na área e tinham notícias de envolvimento com corrupção”.

Conforme a denúncia, o tenente-coronel fazia questão de expor que “não quero(queria) um policial honesto, eu quero(mas sim) um policial leal!”. O comandante-geral da Polícia Militar, discorda da declaração de Araújo. “A honestidade e a lealdade sempre caminham juntas. Todo policial que infringir uma lei e desvio de conduta, certamente será responsabilizado. E tenha certeza que todo policial militar sabe disso”, afirma.

As defesas dos acusados negam as acusações e o envolvimento dos policiais no esquema criminoso. Mas o MP “concluiu que os oficiais militares investigados, todos com altas patentes, usaram de seus cargos para permitir o transporte livre de cigarros pelas estradas, mediante o recebimento de altas somas da organização criminosa”. Agora, a justiça vai decidir se os policiais serão condenados e se o pedido do Ministério Público Estadual (MPE) para que “seja decretada a perda do cargo dos denunciados” será aceito.

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