Enquanto aquilo que desejamos está distante, conseguimos organizar a vida em torno disso: estudar para um concurso, tentar uma vaga na faculdade, procurar um emprego melhor. Essa organização cotidiana é o que sustenta a espera pela conquista, e é a ausência dessa conquista que dá contorno a boa parte do nosso desejo.

Desejar acaba sendo muito mais do que querer algo, mas vivenciar o processo que te leva até o seu objeto de desejo. 

Quando, finalmente, o nosso desejo se realiza, algo do prazer em ter aquilo se perde.

A falta que antes nos movia diminui. As engrenagens mudam de lugar. As promessas, as ações, que ora impulsionaram, dão lugar aos atos de manutenção, às exigências de presença, constância e tomadas de decisões diárias. Nem sempre estamos preparados para isso.

É por isso que situações aparentemente contraditórias são tão comuns: “Estudei meses para a prova mais difícil e fui eliminado numa etapa simples, que eu já tinha feito antes”, “Queria tanto ser promovido. No primeiro mês, pensei em pedir demissão”, “Esperei tanto pelas férias. Quando elas chegaram, fiquei inquieto, sem saber o que fazer”, “Lutei tanto para me formar e, quando consegui, não comemorei como esperava”. 

Esses episódios costumam ser lidos como ingratidão, despreparo ou desatenção. Mas talvez revelem outra coisa: a realização do desejo não garante satisfação. Em alguns casos, ela inaugura uma angústia nova, desconhecida.

A aprovação, o cargo ou a vaga sonhada retiram a pessoa do lugar de quem deseja e a colocam no lugar de quem precisa sustentar o que foi conquistado. Isso muda tudo, inclusive a relação com o prazer. O problema não é desejar demais. É acreditar que o desejo, uma vez realizado, continuará funcionando da mesma forma. Ele não continua. O desejo precisa ser reinventado. E é preciso reconhecer que nem toda realização trará completude, algumas apenas nos deixam diante de um confronto com aquilo queimaginávamos que ela resolveria. É aceitar que nem tudo que se deseja vai trazer plenitude, e que, mesmo assim, desejar continua sendo necessário.

Por Francielle Guedes