– Quem é você?
– Adivinha se gosta de mim

Com um pancanke branco no rosto e a maquiagem feita por artistas locais, os foliões que elegem o Bloco dos Palhaços como sua última parada no Carnaval de Corumbá podem sentir o gostinho dos bailes de máscaras e das matinês carnavalescas que aconteciam na cidade em outras décadas. 

Há dois anos, a palhaçada é sediada no antigo Grêmio Esportivo e Cultural dos Subtenentes e Sargentos, que outrora funcionava como um espaço recreativo e, atualmente, é utilizado como a Oficina de Dança da cidade. A fundadora do Bloco, Bianca Machado entende que o lugar faz diferença, por rememorar os antigos carnavais e tornar o ambiente aconchegante para famílias inteiras. 

A concentração do Bloco conta com bebidas pagas e pipoca gratuita para todos. A trilha sonora, este ano, foi elaborada pela banda de rock 4ever (forever), já popular na Cidade Branca. Para além do rock, os artistas variaram o repertório com axé music, reggae, brega e outros sucessos clássicos da festividade. Já durante o desfile do bloco, junto a cantora Karina Cabral – que encarnou o vozeirão digno da Era do Ouro do Rádio – interpretaram as mais conhecidas marchinhas e, claro, sem faltar, o hino da bagunça: “Eu sou palhaço!”.

A produtora cultural, Andri Rodrigues, há dez anos, participa da organização do bloco. Ela se orgulha, principalmente, porque as pessoas sempre voltam. “As pessoas querem escolher as fantasias mais bonitas, esperam para passar a maquiagem e se divertem no nosso carnaval de salão”. Para ela, a festa beneficia tanto os foliões com o ambiente seguro e a beleza do evento quanto os artistas da cidade, como exemplo, cita a parceria com a escola de circo Vivart. “A gente fomenta e valoriza a parte artística da cidade e não deixa o [dito] carnaval cultural morrer”.

A foliã, Débora Eichelberger, participou pela primeira vez dessa experiência, com o esposo, seus filhos e outros familiares. “Eu amei. A minha filha dançou, pulou, brincou. Vim a convite de uma tia que, desde o início do bloco, traz os seus filhos. Agora eles moram fora e, mesmo querendo, não puderam vir; então a gente resolveu acompanhá-la”. 

Foto: Maria Eduarda Metran

Sobre os ladrilhos vermelho-tijolo do grêmio, enquanto alguns expressavam toda a alegria – ou a dor do fim da folia – outros descansavam no chão. Crianças que após dançarem, correrem atrás uma das outras e dos balões, começavam a se cansar. Mas o descanso mesmo só foi garantido após às 23h, quando o bloco passou pela passarela do samba que contava, ainda, com o público da arquibancada, também convidados para participar da manifestação. 

O desfile é organizado com foco nas crianças. As famílias com os pequenos desfilam no fronte, enquanto o restante vem atrás, inclusive o trio elétrico. Para complementar as cores, são distribuídos balões amarelos. Segundo Machado, tudo começou com o intuito de levar alegria para as crianças das ruas de Corumbá.

De acordo com ela, tudo começou em 1989, com um só palhaço, que customizava as próprias roupas e saía todos os dias do carnaval fantasiado. “Era uma pessoa só, Guilherme Mourão. O carnaval começava numa quarta-feira. Depois, eu me juntei, os amigos começaram a se reunir e, juntos, distribuímos balões, maria-mole, picolé, para as crianças. A ideia do bloco era essa, divertir quem estava na rua. Quando a gente viu, mais tarde, já estávamos sendo chamados para participar de escolas de sambas e blocos [oficiais]”. 

Embora tenha surgido há mais de três décadas. Foi em 2006, sob o aval da então presidente da Fundação de Cultura de Corumbá, Heloísa Urt, que o Bloco dos Palhaços começou a fazer parte da programação do Carnaval Cultural, voltada para os corsos tradicionais na terça-feira. “Ela literalmente disse: ‘para com esse negócio [de bloco independente]! não, vocês são um bloco tradicional, vocês são um bloco familiar’”. 

Desde então, a palhaçada encerra o carnaval da cidade branca. 

A fundadora questiona sobre a dificuldade de sair distribuindo coisas na rua, ainda mais para crianças, hoje em dia. Apesar da ausência de guloseimas, o bloco segue leal a finalidade de entregar grandes emoções aos participantes e espectadores: nostalgia, pertencimento, alegria e liberdade. 

Por Maria Eduarda Metran