O ano é novo mais uma vez! Janeiro chegou e com ele um roteiro – bem conhecido – de inúmeros recomeços. Guardar dinheiro lidera o ranking, seguido por academia, corrida, alimentação, ter mais cuidado com o corpo/mente. Promessas familiares a todos. Temos a tendência a produzir, ao menos em pensamento, coisas que nos levam por um caminho de bem-estar depois de sobreviver a mais um ano. A partir daí surgem publicações sobre as metas no instagram, sob a trilha de Sujeito de Sorte. “Ano passado eu morri, mas esse ano não morro”.
O ano novo se trata de recomeços, dezembro e janeiro têm cara de alegria e renovação. E que cilada acreditar numa renovação onde se pode deixar para trás aquilo que não foi elaborado, como se o tempo pudesse apagar o que o inconsciente insiste em viver. As angústias do passado não são apenas restos incômodos, elas dizem de quem somos, do que desejamos, do que nos falta. Quando tentamos eliminá-las à força, não encontramos paz, encontramos repetição.
A repetição, quando não reconhecida, pode se tornar enlouquecedora, deixando rastros de sofrimento por onde passa.
Seria fácil se pudéssemos escolher o que não queremos mais, porém o que seria da vida sem os fantasmas que vivemos no passado? Dá para fantasiar muita coisa boa, mas existe uma leve certeza de que a repetição iria persistir nos relacionamentos, nos conflitos, nas promessas quebradas.
Segundo Lacan, a “angústia é o afeto que não mente”. Ela aparece justamente quando se deseja muito algo: um novo emprego, uma mudança, um relacionamento. Mas quando a oportunidade realmente aparece, surge insônia, taquicardia, inquietação. Isso é um sinal de que a angústia não mente, o corpo sente e manifesta seus sintomas mesmo sendo algo que tanto deseja.
Se há esse incômodo, há vida. Esse desconforto aponta para algo verdadeiro de quem somos e surge quando algo do desejo está em jogo. Não se trata de buscar sua ausência, mas de escutá-lo. Ele é um sinal, um aviso de que algo precisa ser olhado, dito, elaborado.
Onde há angústia, há conflito, movimento e vida pulsante.
E para o ano que é novo, que não esqueçamos o passado, que possamos entender e trabalhar as nossas dores para construir um caminho diferente; que lembremos, com mais frequência, das alegrias e menos das tristezas. Que tenhamos esperança, que é um dos nomes para o desejo. Que esse desejo seja vivido a cada novo dia e não somente a cada janeiro
Esse é o texto de estreia da nova coluna quinzenal da psicanalista Francielle Guedes no Corumbá Online. As opiniões expressas neste espaço são de responsabilidade da autora e não representam, necessariamente, a posição do jornal.

