Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves - dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)
O Brasil, por ser o único país da América do Sul convidado que não aceitou participar do chamado Escudo das Américas, precisa tratar o tema com a máxima prudência. A iniciativa, liderada pelos Estados Unidos, reúne países preocupados com sua segurança interna diante do crescimento acelerado do crime organizado, dos cartéis e do narcotráfico. Trata-se de um problema real, grave e internacional, que ultrapassa fronteiras e exige cooperação entre Estados.
As organizações criminosas transnacionais já não atuam apenas como grupos isolados. Elas possuem estrutura, financiamento, armamento, rotas internacionais e capacidade de infiltração social e institucional. Por isso, é compreensível que países do continente busquem uma união de esforços para enfrentar um perigo que cresce em velocidade espantosa e que, se não for combatido com inteligência e coordenação, pode comprometer a soberania e a segurança de diversas nações.
No entanto, a decisão brasileira de aderir ou rejeitar uma coalizão dessa natureza não pode ser tratada como escolha isolada de um único poder. Pela gravidade do tema, o assunto deveria ser debatido com responsabilidade entre Executivo, Legislativo, Judiciário, Forças Armadas e setores estratégicos da sociedade. Não se trata apenas de política externa, mas de segurança nacional, soberania, diplomacia e preservação institucional.
A preocupação aumenta diante da postura norte-americana em relação ao combate aos cartéis e facções criminosas. O governo dos Estados Unidos já demonstrou disposição de adotar medidas duras contra organizações classificadas como ameaça à sua segurança interna. No caso brasileiro, a divergência se agravou quando o governo nacional rejeitou a proposta de declarar facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, enquanto os Estados Unidos passaram a tratá-las dessa forma.
Esse desencontro pode criar uma tensão perigosa. Ainda que pareça distante, não se pode ignorar a possibilidade de que, em nome da própria segurança, uma potência estrangeira tente justificar pressões, sanções ou até ações mais agressivas, citando exemplos como a Venezuela de Maduro. Por isso, o Brasil precisa agir antes que a situação se transforme em uma tragédia anunciada.
A solução não está em submissão automática nem em rejeição ideológica. Está na diplomacia firme, na defesa da soberania e na construção de acordos operacionais que permitam combater o crime organizado sem abrir espaço para intervenção externa. O Brasil deve dialogar, avaliar riscos, preservar sua autonomia e buscar cooperação internacional dentro dos limites constitucionais.
Diante de tema tão sensível, a pior decisão é aquela tomada com emoção, isolamento ou disputa política. O combate ao crime organizado exige união, inteligência e coragem. Mas a defesa da soberania nacional exige ainda mais: prudência, cautela e responsabilidade histórica.



