Uma reflexão sobre a expectativa que depositamos no carnaval, entre a festa, o descanso e o desejo de recomeço.
É quase uma obrigação social fazer com que o feriado de carnaval seja épico. Paira a expectativa de que a alegria é obrigatória e que, naquela hora, a tristeza deve dar um tempo. Há pessoas que optam pelo retiro, o silêncio, a comunhão. Ambos projetam nos seus dias a promessa de uma “cura mágica” para o estresse acumulado. Esperam voltar para a rotina transformados, como se quatro dias pudessem resolver uma vida inteira.
Seja pela folia ou pelo descanso, é fato que o feriado de carnaval é um dos mais esperados do ano. Mas o que é que mora nessa expectativa?
Mora, antes de tudo, o desejo de suspensão. Os dias não são apenas números nos nossos calendários, mas uma promessa de ruptura com a nossa falta: é quando buscamos o refúgio de uma nova identidade, acreditando que o simples gesto de vestir uma fantasia possa suspender, por um instante, o peso de quem somos no resto do ano.
É como se, por quatro dias, tentássemos apertar o botão de “pausa” na realidade e desistir do jogo temporariamente.
Existe uma fantasia que todos usam: a fantasia de completude. É o enredo que construímos. Se formos à festa perfeita ou ao retiro espiritual mais profundo, a vida finalmente vai ‘fechar a conta’ e tudo vai fluir. Afinal, o ano só começa depois do carnaval.
Essa fantasia é a tentativa de se sentir inteiro através do outro, através do barulho, multidão, da alegria contagiante, da experiência compartilhada. É um desejo profundo de encontrar plenitude através da intensidade. A esperança de que aquele momento preencha qualquer vazio que a rotina tenha deixado. Que o cansaço da vida seja curado. E sejamos sinceros, de certo modo até são. Somos brasileiros e somos movidos àa festa, movidos a expectativas.
A verdade é que a nossa subjetividade vai conosco na mala. Nossas questões internas estão lá, dançando no bloco ou pulando no retiro. O que mora na expectativa, no fim das contas, é a oportunidade de recalcular a nossa demanda. É preciso aceitar que nem o bloco e nem o retiro podem resolver os conflitos de uma vida inteira, e que são “apenas” dias para celebrar e experimentar algo diferente.Mas isso não significa que devemos abrir mão da expectativa. Pelo contrário. Defender a expectativa é defender o próprio desejo. Nós precisamos das fantasias. Precisamos acreditar que coisas boas vão acontecer, que o bloco ou o retiro serão inesquecíveis, porque é essa esperança que nos dá coragem para continuar seguindo.
Texto da coluna quinzenal da psicanalista Francielle Guedes no Corumbá Online. As opiniões expressas neste espaço são de responsabilidade da autora e não representam, necessariamente, a posição do jornal.


