Representantes da comunidade palestina de Corumbá participaram da última sessão solene da Câmara Municipal realizada na terça-feira, 12, e receberam total apoio dos vereadores corumbaenses que se manifestaram pelo fim da guerra na Faixa de Gaza.

Na oportunidade, Adnan Haymour, membro da comunidade, leu uma carta assinada por Wonder Suelman Safa, presidente da Sociedade Árabe-Brasileira de Corumbá, em que resumiu todo o drama vivido pelos palestinos, tanto em Gaza como em todo o mundo, inclusive Corumbá.

Wonder classificou a guerra como um ‘massacre’ do povo palestino e, durante apresentação de um vídeo, mostrou cenas trágicas, um pouco do que a guerra tem causado na região de Gaza, com crianças, jovens, idosos, mortos; prédios residenciais, casas, hospitais, todos destruídos, e que o sofrimento do povo palestino não é recente, quando se iniciou essa guerra em Gaza, mas que já dura 76 anos.

Fez um agradecimento aos vereadores corumbaenses pela colhida “fraternal e hospitaleira” e classificou como um “momento histórico em que Corumbá, Cidade-Irmã do Município de Ramallah (Cisjordânia, Palestina), mais uma vez dá voz ao povo palestino, cuja comunidade, no Coração do Pantanal, é das mais numerosas no Brasil, que nos acolheu há mais de um século”;

Agradeceu o vereador Samir Sadeq Ramunieh, a Mesa Diretora e todos os integrantes do Legislativo Municipal “pela iniciativa cordial e solidária de dar voz à Comunidade Palestina que, com seu grão de areia e muita gratidão, dá sua modesta colaboração para o progresso e o bem-estar de Corumbá, Mato Grosso do Sul e o Brasil”.

A CARTA

Na carta, o presidente da Sociedade fez um relato da trajetória palestina no Brasil, lembrando a chegada das primeiras famílias à hospitaleira Corumbá, “para trabalhar, amar e honrar com gratidão que temos pelo grande Brasil, País que nos deu uma grande chance para sobreviver com dignidade e valor humano”.

“Somos sincera e eternamente gratos ao Brasil, terra de oportunidades, paz, concórdia e de uma imensa hospitalidade. Esta terra, o povo brasileiro, nos ensinou muito, e nós, com humildade, tentamos retribuir trabalhando, amando o Brasil e seu laborioso e hospitaleiro povo e formando nossos filhos, filhas, netos e netas para amar, respeitar, trabalhar e contribuir com muita dignidade para o desenvolvimento do Brasi”, continuou.

Recordou que muitos, talvez a maioria, tenham chegado ao País, privados de cidadania, pelas razões de terem sido expulsos da própria pátria, a milenar Palestina, “mas hoje temos nacionalidade brasileira, e isso nos honra, nos deixa gratos, muito gratos. A gratidão, na cultura árabe, e a hospitalidade, como a história prova, são também a marca da Palestina milenar, que até praticamente a metade do século vinte, estava, mesmo sob a colonização britânica (e, antes, turca-otomana), com governo local e regional próprios”.

“Diferente do que as fake News dizem, nós acolhemos os judeus desde os tempos das Cruzadas e, sobretudo, durante a Inquisição, duas grandes perseguições contra essa religião. É preciso lembrar que o Holocausto judeu aconteceu na Alemanha nazista, isto é, na Europa (incluindo a Hungria, Polônia, França e Áustria, invadidas por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial)” prosseguiu.

“Quem conhece as Escrituras, sabe que os árabes são descendentes de Ismael, filho de Abrão (Abraham ou Ibrahim, em árabe), e, portanto, são também Semitas. Fazendo jus à nossa educação e respeito pela humanidade, sempre acolhemos os judeus nas diferentes perseguições que sofreu ao longo da História, mormente na Europa. E assim, quando chegaram os primeiros judeus à Palestina no século vinte, antes e durante a Segunda Guerra Mundial, eles foram recebidos como verdadeiros irmãos”, continuou.

“Mas com eles chegaram grupos paramilitares, como o Haganá, o Irgun, Sten Lijen enfim, mas de mais de vinte organizações terroristas – muito bem armadas -, tendo sido responsáveis pelo atentado ao Hotel King David, em Jerusalém, que matou mais de 120 pessoas, entre britânicos, árabes e inclusive judeus, além do primeiro massacre contra palestinos, o de Deir Yassin, em 9 de abril de 1948 (a poucas semanas da chamada “independência” de Israel, em 15 de maio, quando começa a Nakba, a Tragédia Palestina), em que morreram mais de 170 civis desarmados e inofensivos (crianças, mulheres e idosos) em uma população de apenas 800 habitantes, que sequer tinham espingardas para se proteger do armamento trazido da Europa ou deixados pelos colonizadores britânicos”.

“É que o sionismo, movimento fundado na Europa por Theodor Herzl em fins do século dezenove, tinha como objetivo ‘uma terra sem povo para um povo sem terra’. Para eles, a Palestina era uma ‘terra sem povo’. E os palestinos, são o quê? Ratos?! Não somos humanos, e como humanos temos nossas contribuições, nosso legado registrado na História das Civilizações. Não apenas somos os guardiões das três maiores religiões monoteístas da humanidade, pois, ao longo de milênios, cuidamos, respeitamos, protegemos todos os templos religiosos, tanto é que estão preservados até nossos dias”.

Neste momento, quando transcorrem 37 dias do genocídio que desabou sobre Gaza (e em escala menor na Cisjordânia e em Jerusalém ocupada), é preciso observar que a humanidade testemunha o maior genocídio já cometido na face da Terra, logo por aqueles que foram vítimas dos massacres nazistas, ocorridos em solo europeu”.

“Não é guerra o que acontece em Gaza: é genocídio, massacre, carnificina. É o verdadeiro terrorismo de Estado. Soldado não foi feito para promover vingança, a menos que seja um terrorista. A propaganda deles diz que terroristas somos nós, que não temos exército, força aérea nem marinha. Somos proibidos de possuir qualquer tipo de arma com munição, e se tivermos um facão muito grande somos levados à prisão por tempo indeterminado”.

“Existem leis, tratados, convenções de guerra e resoluções da ONU (aliás, que nunca foram cumpridas por Israel em seus 75 anos de existência) que proíbem operações como as que vêm sendo realizadas pelas forças armadas sionistas, que são o segundo exército mais poderoso do mundo, só perde para o dos Estados Unidos. O uso de bombas de fósforo branco, que produzem ferimentos graves quando não matam, são proibidas, assim como o napalm, o agente laranja. Isso os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Europeia não enxerga, por quê? É guerra de extermínio, de terra arrasada, e como o governo de Israel sabe que os Estados Unidos vão usar o seu poder de veto no Conselho de Segurança, não se intimida”.

“Não pedimos o impossível, apenas que os direitos do Povo Palestino sejam respeitados. Temos direito a ter um Estado livre e soberano, que é a Palestina. Temos direito a ter um governo eleito por nós, sem a intervenção de potências mundiais, interessadas em nosso território, em nossas riquezas, em nossa história, em nossa cultura, mas sem nossa população. Temos direito à integridade física e mental de nossas crianças, adolescentes, jovens, mulheres, adultos, idosos, doentes, feridos e mutilados. Temos direito à vida. Temos direito a beber água, a comer comida, a ir e vir livremente. O que ocorre há mais de vinte anos em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém ocupada é um campo de concentração que está virando campo de extermínio, como o nazista, de triste memória”.

Wonder Safa agradeceu a oportunidade que a comunidade teve de manifestar angústia em ver “conterrâneos sendo massacrados sem qualquer consideração, caridade”, fazendo um balanço sobre toda a tragédia. Pediu apoio da Casa de Leis, para reforçar junto ao Governo Brasileiro, a necessidade de continuar lutando pelo fim da guerra em Gaza.