{"id":11711180,"date":"2021-01-07T08:08:00","date_gmt":"2021-01-07T12:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11711180"},"modified":"2021-01-07T09:32:01","modified_gmt":"2021-01-07T13:32:01","slug":"dia-do-leitor-falta-de-acessibilidade-e-desafio-para-formar-leitores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/dia-do-leitor-falta-de-acessibilidade-e-desafio-para-formar-leitores\/","title":{"rendered":"Dia do Leitor: falta de acessibilidade \u00e9 desafio para formar leitores"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil conta com\u00a0100,1 milh\u00f5es de leitores, em um universo de mais de 200 milh\u00f5es de habitantes,\u00a0e esse grupo vem diminuindo com o passar do tempo. De acordo com a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da pesquisa\u00a0<a href=\"https:\/\/prolivro.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/5a_edicao_Retratos_da_Leitura_no_Brasil_IPL-compactado.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Retratos da Leitura no Brasil<\/a>, feita com dados de 2019, registrou-se uma diferen\u00e7a de 4,6 milh\u00f5es de pessoas\u00a0em rela\u00e7\u00e3o a 2015.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1398074&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1398074&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa, elaborada pelo Instituto Pr\u00f3 Livro e o Ita\u00fa Cultural, lembram alguns dos entraves para se manter o h\u00e1bito de leitura no pa\u00eds, que voltam \u00e0 tona em datas como a comemorada hoje (7), Dia do Leitor. A celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma homenagem \u00e0 funda\u00e7\u00e3o do jornal cearense O Povo, que foi criado em 7 de janeiro de 1928, pelo poeta e jornalista Dem\u00f3crito Rocha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do valor dos livros, que os tornam artigo de luxo para os mais pobres, e da correria do dia a dia, que acaba dificultando o h\u00e1bito da leitura,\u00a0ainda\u00a0faltam recursos de acessibilidade. Tal lacuna tamb\u00e9m \u00e9 percebida em um dos formatos mais queridos dos brasileiros: os gibis ou as hist\u00f3rias em quadrinhos. Juntos, eles representam uma parcela significativa de material de leitura com que o brasileiro tem contato todos os dias ou pelo menos uma vez por semana, conforme revela a pesquisa Retratos da leitura no Brasil.<\/p>\n<p>A pesquisa mais recente do Instituto Pr\u00f3-Livro e Ita\u00fa Cultural tamb\u00e9m mostrou que 2% dos entrevistados classificados como n\u00e3o leitores de livros informaram que a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o leram nos \u00faltimos tr\u00eas meses foi porque t\u00eam problemas de sa\u00fade\/vis\u00e3o. Entre os entrevistados qualificados como leitores, a pergunta n\u00e3o foi aplicada.<\/p>\n<h2>Pesquisa<\/h2>\n<p>Os obst\u00e1culos de se traduzir\u00a0hist\u00f3rias em quadrinhos para pessoas com defici\u00eancia visual foi o enfoque dado pelo pesquisador Victor Caparica \u00e0 sua\u00a0<a href=\"https:\/\/repositorio.unesp.br\/handle\/11449\/183140\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tese de doutorado<\/a>, desenvolvida na Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho (Unesp). O trabalho venceu o Pr\u00eamio Unesp de Teses\u00a0na categoria Sociedades Plurais.<\/p>\n<p>Caparica perdeu, primeiro, a vis\u00e3o de um olho apenas, tornando-se o que se chama de monocular, at\u00e9 que, uma d\u00e9cada depois, acabou ficando sem enxergar de modo absoluto. Ele integra a parcela de 3,6% da popula\u00e7\u00e3o brasileira que tem defici\u00eancia visual. Conforme menciona o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), na Pesquisa Nacional de Sa\u00fade,\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2015-08\/ibge-62-da-populacao-tem-algum-tipo-de-deficiencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">16% das pessoas com esse tipo de defici\u00eancia<\/a>\u00a0apresentam um grau muito severo, que os impede de realizar atividades habituais, como ir \u00e0 escola, trabalhar e brincar.<\/p>\n<p>Segundo Caparica, a audiodescri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo semelhante \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o, mas consiste, &#8220;categoricamente&#8221;, em traduzir. Isso significa que implica o mesmo grau de percal\u00e7os e questionamentos de outros tipos de tradu\u00e7\u00e3o, como a liter\u00e1ria. O processo que se configura \u00e9 &#8220;a transposi\u00e7\u00e3o de um enunciado de uma perspectiva visual (que uma pessoa com defici\u00eancia\u00a0 visual n\u00e3o pode\u00a0avaliar) para uma perspectiva n\u00e3o-visual&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nenhuma diferen\u00e7a qualitativa ou quantitativa observ\u00e1vel entre a tradu\u00e7\u00e3o de uma pessoa que traduz um poema de um idioma para outro e uma audiodescri\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os mesmos desafios, a mesma atividade, s\u00e3o as mesmas compet\u00eancias que se espera do profissional&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Inclusive, na \u00e1rea de letras, \u00e9 relativamente conhecido o termo da tradu\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica e eu uso bastante essa express\u00e3o na pesquisa, que \u00e9 justamente quando voc\u00ea est\u00e1 traduzindo um enunciado de uma forma de constru\u00e7\u00e3o de sentido, que a gente chama de semiose, de uma semiose pra outra. Ent\u00e3o, \u00e9 de uma forma de construir significados pra outra forma de construir significado.&#8221;<\/p>\n<p>Em seu trabalho acad\u00eamico, Caparica\u00a0pontua que aproveitar a simples sucess\u00e3o de quadros n\u00e3o seria o suficiente para uma narra\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o que fez a partir de sua dupla experi\u00eancia, como leitor de hist\u00f3rias em quadrinhos visual e como consumidor do produto audiodescrito. E foi nesse sentido que desejou contribuir.<\/p>\n<p>O pesquisador\u00a0argumenta, ainda, que &#8220;a audiodescri\u00e7\u00e3o exige a coopera\u00e7\u00e3o entre um audiodescritor que enxerga e um consultor que n\u00e3o enxerga&#8221;. Por isso, para desenvolver sua tese, a companheira de Caparica, Let\u00edcia Mazzoncini Ferreira, formou-se como audiodescritora para colaborar com o projeto.<\/p>\n<p>&#8220;Quem consome a audiodescri\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode produzi-la,\u00a0quem precisa, seu p\u00fablico-alvo.\u00a0E\u00a0quem a produz n\u00e3o \u00e9 seu p\u00fablico-alvo. Isso cria uma lacuna, um abismo comunicacional que precisa ser suplantado. \u00c9 necess\u00e1rio que se construa uma ponte por cima desse precip\u00edcio que separa o p\u00fablico da produ\u00e7\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Eu ainda consigo cumprir, como profissional, uma s\u00e9rie de pap\u00e9is da audiodescri\u00e7\u00e3o, por uma coincid\u00eancia de elementos da minha forma\u00e7\u00e3o pessoal e profissional, acabei acumulando algumas compet\u00eancias m\u00faltiplas na \u00e1rea de audiodescri\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de ser consultor e produtor de conte\u00fado audiodescrito, sou tamb\u00e9m locutor profissional e tamb\u00e9m fa\u00e7o a parte de edi\u00e7\u00e3o e mixagem de \u00e1udio. Ent\u00e3o, tr\u00eas quartos do trabalho com a produ\u00e7\u00e3o de audiodescri\u00e7\u00e3o eu, como p\u00fablico-alvo, consigo estar l\u00e1 e fazer, mas esse um quarto que falta \u00e9 o papel mais importante de todos, que \u00e9 o de audiodescritor, que faz efetivamente a tradu\u00e7\u00e3o&#8221;, emenda.<\/p>\n<h2>Audiodescri\u00e7\u00e3o pelo mundo<\/h2>\n<p>Caparica destaca, em sua tese, tr\u00eas localidades que considera avan\u00e7adas, em termos de audiodescri\u00e7\u00e3o: os\u00a0 Estados\u00a0 Unidos, o\u00a0 Reino\u00a0 Unido e a Espanha. No territ\u00f3rio\u00a0estadunidense, por exemplo, o r\u00e1dio foi fundamental para a difus\u00e3o desse tipo de t\u00e9cnica, que come\u00e7ou pelo teatro, com pe\u00e7as sendo transmitidas por diversas esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Costumo dizer que a audiodescri\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com o r\u00e1dio. A\u00ed, voc\u00ea vai dizer: radionovela. A radionovela n\u00e3o \u00e9 o caso, porque j\u00e1 foi concebida para ser \u00e1udio, mas as locu\u00e7\u00f5es esportivas no r\u00e1dio, n\u00e3o. O primeiro caso de audiodescri\u00e7\u00e3o profissional que voc\u00ea vai encontrar s\u00e3o os locutores futebol\u00edsticos, que faziam audiodescri\u00e7\u00e3o em tempo real do que estava acontecendo no est\u00e1dio. Sem d\u00favida, o r\u00e1dio teve, em muitos lugares, uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com a audiodescri\u00e7\u00e3o e \u00e9 ainda subutilizado nesse sentido. Se considerar a estrutura de pessoas que tem um radinho FM em casa e, mesmo quem n\u00e3o tem, quanto custa um hoje? Tem uma facilidade de estrutura e de se transmitir esse conte\u00fado de forma acess\u00edvel e com tanta facilidade por essa m\u00eddia, acho que \u00e9 muito subutilizada pelo que poderia ser, hoje, no s\u00e9culo 21&#8221;, pontua Caparica.<\/p>\n<p>Enquanto nos Estados Unidos h\u00e1 uma lei federal que fortalece a consolida\u00e7\u00e3o do recurso, no Brasil, avalia ele, &#8220;a pr\u00e1tica \u00e9 incipiente&#8221;.<\/p>\n<p>O que falta, afirma, \u00e9 a robustez e a estabilidade de pol\u00edticas p\u00fablicas. Caparica afirma que a audiodescri\u00e7\u00e3o no pa\u00eds ainda precisa ser aprimorada, embora n\u00e3o esteja &#8220;estagnada&#8221; e que a capacita\u00e7\u00e3o profissional deve, necessariamente, contemplar demandas espec\u00edficas do idioma.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o existe, nunca existiu no Brasil uma pol\u00edtica nacional para pessoa com defici\u00eancia. Pol\u00edtica nacional n\u00e3o \u00e9 projeto de governo, porque isso, esse partido faz e o pr\u00f3ximo desfaz. Pol\u00edtica nacional \u00e9 como se teve, por exemplo, a de alfabetiza\u00e7\u00e3o no Brasil. Foi um projeto que foi abra\u00e7ado e nenhum governo que veio depois achou que fazia sentido desfazer. &#8221;<\/p>\n<p>Por isso, toda iniciativa \u00e9 sempre individual, pontual, \u00e9 sempre quem consegue fazer alguma coisa e, dentro dessas possibilidades, dessa limita\u00e7\u00e3o, o que o Brasil conseguiu fazer foi produzir audiodescri\u00e7\u00e3o no come\u00e7o desse s\u00e9culo s\u00f3, colocando a gente com certo atraso na coisa. A gente demorou muito para regulamentar a profiss\u00e3o de audiodescritor. Um curso de audiodescritor ainda n\u00e3o tem nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 feito de maneira muito informal. Os melhores, inevitavelmente, v\u00e3o replicar o modelo de cursos do exterior j\u00e1 consagrados&#8221;, finaliza.<\/p>\n<h2>Retrato da leitura e o gosto por quadrinhos<\/h2>\n<p>Para obter os dados apresentados no levantamento do Instituto Pr\u00f3 Livro e do Ita\u00fa Cultural, equipes percorreram 208 munic\u00edpios, entre outubro de 2019 a janeiro de 2020. Ao todo, 8.076 pessoas foram consultadas, sendo divididas entre leitores, que s\u00e3o aqueles que leram um livro integral ou parcialmente nos \u00faltimos tr\u00eas meses, e n\u00e3o leitores, classifica\u00e7\u00e3o que designa aqueles que declararam n\u00e3o ter lido nenhum livro nos \u00faltimos 3 meses, mesmo que tenha lido nos \u00faltimos 12 meses.<\/p>\n<p>A simpatia pela Turma da M\u00f4nica fica evidente nas respostas. Os gibis foram uma das 37 obras mais citadas. Al\u00e9m disso, Maur\u00edcio de Sousa, criador dos personagens do gibi, tamb\u00e9m figura entre os autores mais lembrados e adorados.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se observa que, entre estudantes, a propor\u00e7\u00e3o de gibis e hist\u00f3rias em quadrinhos \u00e9 maior (16%) do que a registrada entre n\u00e3o estudantes (8%). A m\u00e9dia nacional \u00e9 de 8%.<\/p>\n<p>Pode-se imaginar tamb\u00e9m que, ao estar na universidade, os jovens acabem abandonando os gibis e quadrinhos, mas acontece exatamente o oposto. Ao todo, 14% dos entrevistados com esse n\u00edvel de escolaridade declararam que os leem, contra 13% das crian\u00e7as que cursam o fundamental I (1\u00ba a 4\u00ba s\u00e9rie ou 1\u00ba ao 5\u00ba ano), 12% dos que est\u00e3o no ensino fundamental II (5\u00ba a 8\u00ba s\u00e9rie ou 6\u00ba ao 9\u00ba ano) e 8% dos alunos do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 faixa et\u00e1ria, observa-se que os grupos que mais folheiam gibis e hist\u00f3rias em quadrinhos s\u00e3o pessoas com 5 a 10 anos de idade (22%) e de 11 a 13 anos (21%). As que manifestam menos interesse s\u00e3o idosos com 60 anos ou mais (1%), com 50 a 59 (7%) e 30 a 39 (8%).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil conta com\u00a0100,1 milh\u00f5es de leitores, em um universo de mais de 200 milh\u00f5es&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,10],"tags":[],"class_list":["post-11711180","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cultura","category-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11711180","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11711180"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11711180\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11711181,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11711180\/revisions\/11711181"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11711180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11711180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11711180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}