{"id":11714262,"date":"2021-04-19T09:03:00","date_gmt":"2021-04-19T13:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11714262"},"modified":"2021-04-19T10:48:11","modified_gmt":"2021-04-19T14:48:11","slug":"indigenas-usam-tecnologias-para-manter-lingua-e-cultura-vivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/indigenas-usam-tecnologias-para-manter-lingua-e-cultura-vivas\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas usam tecnologias para manter l\u00edngua e cultura vivas"},"content":{"rendered":"<p>O xokleng \u00e9 uma l\u00edngua falada apenas por uma comunidade ind\u00edgena no Vale do Alto Itaja\u00ed, na regi\u00e3o central de Santa Catarina, onde vivem mais de 2 mil pessoas. Boa parte das 170 l\u00ednguas ind\u00edgenas existentes no Brasil corre o risco de desaparecer. Por isso, desde a d\u00e9cada de 1990, o linguista Nambl\u00e1 Gakran tem trabalhado para resgatar e manter vivo o idioma nativo. \u201cEu n\u00e3o sonhei em ser linguista, mas\u00a0hoje\u00a0eu sou\u201d, diz o ind\u00edgena sobre como se tornou um especialista durante a luta pela preserva\u00e7\u00e3o da cultura do seu povo.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1407157&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1407157&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p>Gakran leciona em escolas ind\u00edgenas da regi\u00e3o e j\u00e1 formou duas turmas de licenciatura intercultural, para que tamb\u00e9m possam dar aulas e repassar os conhecimentos. A pandemia de covid-19 impediu a continuidade do curso neste ano. No entanto, o isolamento devido \u00e0 crise sanit\u00e1ria tamb\u00e9m abriu a porta para uma pequena iniciativa de difus\u00e3o da l\u00edngua nativa.<\/p>\n<h2>Whatsapp<\/h2>\n<p>Desde o ano passado, a comunidade, que vive em \u00e1reas distantes fisicamente, se aproximou por meio de um grupo de Whatsapp onde compartilha seu dia a dia. At\u00e9 ind\u00edgenas que est\u00e3o fora das aldeias, nas cidades, usam o canal para se comunicar com os que ainda vivem no territ\u00f3rio tradicional. A \u00fanica diferen\u00e7a dos outros grupos de fam\u00edlia e amigos da rede de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 que nesse s\u00f3 \u00e9 permitido se comunicar em xokleng. \u201cN\u00e3o se pode falar em portugu\u00eas\u201d, afirma Gakran.<\/p>\n<p>Assim, as pessoas com menos conhecimento t\u00eam a oportunidade de praticar o idioma, especialmente em texto, com aqueles que t\u00eam maior\u00a0dom\u00ednio. \u201cAs pessoas que falam mais ou menos a l\u00edngua entram no grupo e ali come\u00e7am a aprender\u201d explica o professor. Al\u00e9m dos fatos do dia a dia, como uma pescaria ou uma boa ca\u00e7a, o grupo, aos poucos, vai se tornando espa\u00e7o para compartilhar as hist\u00f3rias tradicionais. \u201cQuando surge uma oportunidade, n\u00f3s contamos uma hist\u00f3ria do passado\u201d, diz.<\/p>\n<h2>Import\u00e2ncia da escrita<\/h2>\n<p>Refor\u00e7ar a escrita do xokleng \u00e9 um dos trabalhos que Gakran desenvolve ao longo dos \u00faltimos anos e considera fundamental para evitar que o idioma se perca. \u201cO que falta \u00e9 registro dessa l\u00edngua. N\u00e3o adianta s\u00f3 falarmos verbalmente, mas \u00e9 preciso que a comunidade tamb\u00e9m possa manusear esse material\u201d, defende, ao destacar a import\u00e2ncia de publica\u00e7\u00f5es no idioma.<\/p>\n<p>Foi justamente esse trabalho de registro que levou Gakran a se tornar doutor em lingu\u00edstica. Ele conta que h\u00e1 mais de 30 anos come\u00e7ou a gravar as hist\u00f3rias da comunidade, contadas pelos anci\u00e3os, em parceria com um pesquisador norte-americano. \u00c0 \u00e9poca, a comunidade vivia um processo de afastamento da l\u00edngua, impulsionado pela chegada de muitos n\u00e3o ind\u00edgenas, com a constru\u00e7\u00e3o da Barragem Norte no Rio Itaja\u00ed.<\/p>\n<p>Hoje, ele avalia que o esfor\u00e7o de resgate da l\u00edngua j\u00e1 apresenta bons resultados. \u201cAntes s\u00f3 t\u00ednhamos falantes mais velhos da l\u00edngua materna.\u00a0Hoje, temos crian\u00e7as monol\u00edngues na l\u00edngua xokleng\u201d, comenta. Agora, ele busca parcerias com entidades ou empresas que ajudem a financiar publica\u00e7\u00f5es no idioma nativo. Segundo o professor, at\u00e9 mesmo o material did\u00e1tico para o ensino \u00e9 escasso. \u201cA gente busca parcerias com empresas e organiza\u00e7\u00f5es para que possamos fazer um projeto que venha produzir material dessa l\u00edngua\u201d, ressalta.<\/p>\n<h2>Hist\u00f3rias ao redor do fogo<\/h2>\n<p>Em S\u00e3o Miguel das Miss\u00f5es, no Rio Grande do Sul, o cineasta Ariel Ortega trabalha justamente na perspectiva de resgatar a tradi\u00e7\u00e3o oral do povo guarani mbya, muito mais numeroso e com uma l\u00edngua falada em v\u00e1rios estados brasileiros. \u201cDe manh\u00e3, quando a gente acordava, e todos os saberes do dia a dia eram contados ao redor do fogo, tinha que prestar aten\u00e7\u00e3o\u201d, lembra sobre uma tradi\u00e7\u00e3o que perdeu for\u00e7a com a chegada de novas atividades, como as escolas.<\/p>\n<p>Em 2007, Ortega enxergou a oportunidade de fazer as rodas de hist\u00f3rias, com mitos e fatos passados da comunidade, presentes novamente. \u201cCom a chegada da tecnologia, quando a gente teve o acesso \u00e0s c\u00e2meras de filmar, fomos aprendendo que poder\u00edamos usar essas tecnologias para resgatar hist\u00f3rias antigas, mitologias, conversando e registrando essas falas dos mais velhos\u201d, conta.<\/p>\n<p>No in\u00edcio houve desconfian\u00e7a, e o cineasta precisou convencer aos poucos a comunidade. \u201cNo come\u00e7o, os mais velhos principalmente tinham certo cuidado para n\u00e3o falar muito. Muitos n\u00e3o queriam ser gravados\u201d, lembra. Mas Ortega insistiu na necessidade de que os conhecimentos ancestrais fossem registrados. \u201cFui explicando muito bem a import\u00e2ncia desse registro. Falei que muito dos nossos saberes e conhecimentos foram se perdendo porque a gente n\u00e3o tinha acesso a essas tecnologias\u201d.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Ortega j\u00e1 produziu cinco filmes, mesmo com dificuldades, como a falta de recursos. \u201cA gente faz sem grana mesmo\u201d, diz o artista que teve as produ\u00e7\u00f5es exibidas em diversos festivais no Brasil e no exterior.<\/p>\n<p>Mesmo sendo um defensor do uso da tecnologia, Ortega diz que tenta alertar os mais jovens para os perigos dos novos aparelhos que chegam com for\u00e7a \u00e0s aldeias. \u201cA tecnologia de celular tem muitas coisas boas. Mas ele tira uma coisa muita sagrada: a conex\u00e3o com o que \u00e9 real, com a natureza. Voc\u00ea ir pescar no rio, ver as estrelas \u00e0 noite. Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais ouvindo os p\u00e1ssaros cantarem. Voc\u00ea para de ir \u00e0 casa de reza, para de meditar, porque foca horas no Youtube, nas redes sociais\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O xokleng \u00e9 uma l\u00edngua falada apenas por uma comunidade ind\u00edgena no Vale do Alto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":11714263,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,14],"tags":[],"class_list":["post-11714262","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11714262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11714262"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11714262\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11714264,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11714262\/revisions\/11714264"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11714263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11714262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11714262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11714262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}