{"id":11737149,"date":"2023-09-07T08:47:00","date_gmt":"2023-09-07T12:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11737149"},"modified":"2023-09-07T09:08:16","modified_gmt":"2023-09-07T13:08:16","slug":"professora-afirma-que-7-de-setembro-foi-construido-de-forma-elitista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/professora-afirma-que-7-de-setembro-foi-construido-de-forma-elitista\/","title":{"rendered":"Professora afirma que 7 de Setembro foi constru\u00eddo de forma elitista"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cOuviram do Ipiranga as margens pl\u00e1cidas de um povo heroico o brado retumbante<\/em>\u201d. Assim come\u00e7a o\u00a0<em>Hino Nacional<\/em>\u00a0brasileiro, em alus\u00e3o ao dia 7 de setembro de 1822, quando o Dom Pedro I bradou: \u201cIndepend\u00eancia ou morte\u201d, tornando o Brasil uma p\u00e1tria livre de Portugal. A hist\u00f3ria, no entanto, embora repetida e eternizada em pinturas, livros e at\u00e9 mesmo no hino do pa\u00eds, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim, segundo historiadoras entrevistados pela\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>. N\u00e3o ocorreu em apenas um dia e envolve muitas disputas, interesses, quest\u00f5es sociais e econ\u00f4micas que, de certa forma, perpetuam-se at\u00e9 os dias de hoje.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1553387&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1553387&amp;o=node\" \/><\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-left\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n<figure style=\"width: 365px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Clara Barreto\/Divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/QitBvPvdMg4P1HVd_DQ0soiQvV8=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/professora.jpg?itok=7NpmQM1j\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ) -  A professora Adriana Barreto para mat\u00e9ria Independ\u00eancia 7 de setembroFoto: Clara Barreto\/Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"365\" height=\"487\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Professora Adriana Barreto diz que\u00a0a historiografia j\u00e1 usa o termo &#8220;independ\u00eancias do Brasil&#8221; &#8211;\u00a0Clara Barreto\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cAl\u00e9m de ter sido um processo longo, de muitos anos, as lutas pela independ\u00eancia \u2013 e esse \u00e9 um ponto importante, por muito tempo se acreditou que a independ\u00eancia do Brasil foi uma grande negocia\u00e7\u00e3o intraelite, \u2013 obedeciam a l\u00f3gicas econ\u00f4micas, pol\u00edticas, sociais e demogr\u00e1ficas pr\u00f3prias, particulares \u00e0s v\u00e1rias capitanias da Am\u00e9rica portuguesa. S\u00f3 posteriormente essas capitanias se tornariam uma unidade chamada Brasil. Hoje, a historiografia j\u00e1 usa at\u00e9 o termo no plural, as independ\u00eancias do Brasil\u201d, explica a historiadora Adriana Barreto, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia estados, e o Brasil era dividido nas chamadas capitanias, criadas pelo rei portugu\u00eas D. Jo\u00e3o III em 1534. Esses 15 lotes de terras foram entregues a pessoas de confian\u00e7a da coroa respons\u00e1veis por desenvolv\u00ea-las, sempre em prol de Portugal. O sistema vigorou at\u00e9 pouco antes da data formal da independ\u00eancia, em 1822.<\/p>\n<p>O Brasil, no entanto, ap\u00f3s quase 300 anos da domina\u00e7\u00e3o portuguesa, prospera economicamente e passa a ter uma elite local que deseja usufruir cada vez mais da produ\u00e7\u00e3o, sem precisar pagar impostos a Portugal. A pr\u00f3pria coroa portuguesa estava presente no Brasil desde 1808, quando a fam\u00edlia real fugiu da Europa por conta das invas\u00f5es de Napole\u00e3o Bonaparte, o que distanciava ainda mais as rela\u00e7\u00f5es com Portugal.<\/p>\n<p>Segundo a historiadora Wlamyra Albuquerque, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), na \u00e9poca, o Brasil se sustentava em dois pilares fundamentais: por um lado a produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira e do caf\u00e9 e, por outro lado, a escravid\u00e3o. \u201cNaquele momento estava na berlinda a manuten\u00e7\u00e3o de uma sociedade escravista agr\u00edcola e que demandava uma independ\u00eancia, uma autonomia pol\u00edtica para fazer com que esses neg\u00f3cios continuassem funcionando, continuassem a ser muito lucrativos. A ruptura com Portugal \u00e9 um arranjo para fazer com que esse territ\u00f3rio se transformasse em um pa\u00eds com liberdade econ\u00f4mica para continuar fazendo valer esses neg\u00f3cios baseados na escravid\u00e3o\u201d, diz a historiadora, que\u00a0acrescenta: \u201cSurgimos como na\u00e7\u00e3o para tentar manter os lucros com uma economia muito pujante na \u00e9poca, que era a economia a\u00e7ucareira e do caf\u00e9 baseada no trabalho escravo.\u201d<\/p>\n<p>Adriana Barreto ressalta que n\u00e3o foram apenas as elites que tiveram um papel importante nesse acordo de independ\u00eancia.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA tese da aus\u00eancia de lutas e de participa\u00e7\u00e3o popular no processo de independ\u00eancia do Brasil se enraizou muito na an\u00e1lise do que se passou no Rio de Janeiro. As narrativas sempre destacavam as viagens e costuras pol\u00edticas realizadas por D. Pedro com as elites de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. Todavia, se a gente foca sobre o que se passou nas ruas da cidade entre 1821 e 1822, \u00e9 poss\u00edvel ver uma participa\u00e7\u00e3o popular incr\u00edvel\u201d, diz a historiadora.<\/p><\/blockquote>\n<h2>Escolha da data<\/h2>\n<p>O Brasil tornou-se independente de Portugal, mas seguiu tendo como imperador D. Pedro I e seguiu com a escravid\u00e3o at\u00e9 1888. A data de 7 setembro, como conta Adriana Barreto, foi uma escolha. \u201cUma data concorrente era o 12 de outubro, anivers\u00e1rio de D. Pedro. Foi nesta data que, tamb\u00e9m em 1822, ocorreu a aclama\u00e7\u00e3o do pr\u00edncipe D. Pedro como imperador do Brasil. Mas, com sua abdica\u00e7\u00e3o ao trono, em abril de 1831, a partir de um movimento pol\u00edtico liberal com forte base popular, o 12 de outubro foi extinto, e o 7 de setembro se firmou como data de funda\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio do Brasil\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Apesar da escolha de uma data, segundo as historiadoras entrevistadas, a independ\u00eancia foi um processo que durou anos. Prova disso\u00a0\u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia no dia 2 de julho, na Bahia. A data marca a expuls\u00e3o, em 1823, das tropas portuguesas que ainda resistiam \u00e0 Independ\u00eancia declarada no ano anterior, em um movimento que contou com a participa\u00e7\u00e3o popular. Qualquer autoridade lusitana remanescente foi extirpada do poder.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio em torno da data, de um brado retumbante, um povo heroico, e, sobretudo, uma data capaz de unir toda a popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi uma constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n<figure style=\"width: 754px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/6V98cV6BuyofohGp4L_6Zowy3Is=\/754x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/img_0068.jpg?itok=vnuj9HaK\" alt=\"Quadro \u201cIndepend\u00eancia ou Morte!\u201d, do pintor Pedro Am\u00e9rico, no Museu do Ipiranga, na Vila Monumento.\" width=\"754\" height=\"503\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Quadro\u00a0Independ\u00eancia ou Morte!, do pintor Pedro Am\u00e9rico, no Museu do Ipiranga, na Vila Monumento\u00a0&#8211;\u00a0Rovena Rosa\/Arquivo\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 uma hist\u00f3ria branca. Ind\u00edgenas n\u00e3o aparecem, popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o aparece. A pr\u00f3pria ideia de povo est\u00e1 muito dilu\u00edda, a gente n\u00e3o tem uma hist\u00f3ria din\u00e2mica e polif\u00f4nica\u201d, observa a historiadora Yna\u00ea Lopes dos Santos, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p><\/blockquote>\n<p>De acordo com Yna\u00ea dos Santos (foto), \u00e9 a partir da constru\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia e da forma\u00e7\u00e3o\u00a0do Brasil como pa\u00eds\u00a0que v\u00e3o sendo criados tamb\u00e9m os mitos de exist\u00eancia de\u00a0uma sociedade pac\u00edfica, inviabilizando as v\u00e1rias disputas e revoltas que marcam a hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Esses elementos\u00a0tamb\u00e9m\u00a0refor\u00e7am\u00a0o mito de uma democracia racial no pa\u00eds, ou seja, que n\u00e3o existe preconceito por conta de ra\u00e7a, e que o racismo, quando se manifesta, \u00e9 algo individual.<\/p>\n<p>\u201cEssa constru\u00e7\u00e3o permite o exerc\u00edcio de poder de um grupo que construiu para si esse poder. O mito da democracia racial mant\u00e9m a ordena\u00e7\u00e3o racista, mant\u00e9m todos os privil\u00e9gios, naturalizando esses privil\u00e9gios\u201d, diz ela. \u201cEsse 7 de Setembro \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria muito branca e elitista e \u00e9 proposital.\u201d<\/p>\n<p>Para os ind\u00edgenas, que j\u00e1 habitavam o Brasil antes mesmo de ele ser chamado Brasil, a constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio do 7 de Setembro \u00e9 ainda mais excludente.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-right\">\n<div class=\"dnd-atom-rendered\">\n<div class=\"shadow overflow-hidden rounded-lg d-block w-100\">\n<figure style=\"width: 365px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"flex-fill img-cover\" title=\"T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" src=\"https:\/\/imagens.ebc.com.br\/E7aOD0pDddxaL4SJErOIWshJd8E=\/365x0\/smart\/https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/thumbnails\/image\/trbr7530_0.jpg?itok=QvbCLuPX\" alt=\"Rio de Janeiro (RJ), 04\/09\/2023 - Marize Vieira de Oliveira, Marize Guarani, professora de hist\u00f3ria., concede entrevista em sua casa, Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Foto:T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" width=\"365\" height=\"243\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Marize Guarani\u00a0v\u00ea processo de nega\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas &#8211;\u00a0T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<blockquote><p>\u201cPara falar do 7 de Setembro \u00e9 fundamental a gente entender o que foi, de 1500 at\u00e9 hoje, a constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, que primeiro era col\u00f4nia e, depois, passa a ser um pa\u00eds na independ\u00eancia. Em todo esse per\u00edodo a gente vai ter uma nega\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, vai construindo uma narrativa de que n\u00f3s n\u00e3o temos nada para oferecer\u201d, diz a historiadora e professora Marize Guarani, uma das fundadoras da Associa\u00e7\u00e3o Ind\u00edgena Aldeia Maracan\u00e3.<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo Yna\u00ea dos Santos, todas essas quest\u00f5es precisam ser levadas em considera\u00e7\u00e3o nas comemora\u00e7\u00f5es da independ\u00eancia do Brasil. \u201cEu acho que o 7 de Setembro, por mais que seja uma data muito complicada, \u00e9 um marco que ainda funciona para explicar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es. O que eu acho que precisa ser feito \u00e9 um olhar cr\u00edtico para essa data, entendendo que essa data n\u00e3o \u00e9 fim do processo, porque \u00e9 assim que a gente entende a independ\u00eancia do Brasil, como se come\u00e7asse e terminasse no 7 de setembro. Ela \u00e9 o in\u00edcio de um processo que vai se desenrolar durante muitos meses e s\u00f3 vai terminar no dia 2 de julho\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 fundamental tamb\u00e9m que, junto com essa compreens\u00e3o mais processual, traga outros sujeitos que participaram dessa hist\u00f3ria, para que a gente tenha inclusive uma compreens\u00e3o mais profunda do dinamismo da hist\u00f3ria brasileira\u201d, completa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOuviram do Ipiranga as margens pl\u00e1cidas de um povo heroico o brado retumbante\u201d. Assim come\u00e7a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":11737150,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[255],"class_list":["post-11737149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-7-de-setembro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11737149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11737149"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11737149\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11737151,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11737149\/revisions\/11737151"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11737150"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11737149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11737149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11737149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}