{"id":11741161,"date":"2023-12-04T10:32:00","date_gmt":"2023-12-04T14:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11741161"},"modified":"2023-12-04T11:29:06","modified_gmt":"2023-12-04T15:29:06","slug":"revisionistas-contestam-ditadura-militar-e-nazifascismo-em-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/revisionistas-contestam-ditadura-militar-e-nazifascismo-em-escolas\/","title":{"rendered":"Revisionistas contestam ditadura militar e nazifascismo em escolas"},"content":{"rendered":"<p>A ditadura militar brasileira e o nazifascismo s\u00e3o os temas mais contestados pelos revisionistas ideol\u00f3gicos, ou negacionistas, como s\u00e3o popularmente conhecidos, em escolas investigadas pela pesquisa\u00a0<em>Tuas Ideias N\u00e3o Correspondem aos Fatos: O Ensino de Hist\u00f3ria e o Revisionismo Ideol\u00f3gico em Difus\u00e3o na Atualidade<\/em>, do pesquisador Pedro Zarotti Moreira, que desenvolveu o estudo em seu mestrado profissional na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1570242&amp;o=node\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1570242&amp;o=node\" \/><\/p>\n<p>A pesquisa \u00e9 uma das primeiras a investigar a a\u00e7\u00e3o dos revisionistas ideol\u00f3gicos dentro das escolas do ensino b\u00e1sico. Entre algumas a\u00e7\u00f5es dos revisionistas ideol\u00f3gicos est\u00e1 a abordagem que coloca a escravid\u00e3o no Brasil em uma escala menos violenta; invers\u00e3o do espectro pol\u00edtico do nazismo, tentando classific\u00e1-lo como um movimento de esquerda; e a atenua\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter delet\u00e9rio da ditadura militar brasileira, iniciada em 1964.<\/p>\n<p>O pesquisador define o revisionismo ideol\u00f3gico como a an\u00e1lise dos fatos do passado feita com metodologias pr\u00f3prias tendenciosas, sem a utiliza\u00e7\u00e3o de procedimentos acad\u00eamicos reconhecidos da pesquisa historiogr\u00e1fica. Segundo Zarotti, os revisionistas ideol\u00f3gicos utilizam-se, por exemplo, de casos particulares ou excepcionais do passado para \u201cprovar\u201d que teses consagradas por historiadores acad\u00eamicos seriam \u201cfalsas\u201d.<\/p>\n<p>O professor concentrou-se em analisar o impacto desse fen\u00f4meno no exerc\u00edcio da doc\u00eancia dentro das salas de aula da educa\u00e7\u00e3o fundamental e m\u00e9dia. Para tanto, entrevistou, por meio de um question\u00e1rio com 31 quest\u00f5es, 85 professores volunt\u00e1rios, participantes do Profhist\u00f3ria, programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, coordenado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), composto por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de ensino superior destinado a professores de Hist\u00f3ria que atuam na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>A maioria dos docentes entrevistados atuava na Regi\u00e3o Nordeste (36%), seguido pelos que davam aula no Sudeste (32%), Sul (20%), Centro-Oeste (6%) e Norte (2%).<\/p>\n<p>Dos 85 professores ouvidos, 66 disseram ter presenciado alguma manifesta\u00e7\u00e3o de revisionismo ideol\u00f3gico no espa\u00e7o escolar. Os temas mais questionados, de acordo com o levantamento, foi a ditadura militar brasileira (41 cita\u00e7\u00f5es), nazifascismo (15), escravid\u00e3o (7), racismo (4), religi\u00f5es de matriz africana (4), e ind\u00edgenas (4).<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, dos 66 professores que informaram ter ao menos um conte\u00fado questionado no espa\u00e7o escolar, 60 mencionaram que esse questionamento partiu dos alunos; em seguida, aparecem os pais e ou respons\u00e1veis (27 men\u00e7\u00f5es); colegas professores (23); e superiores na institui\u00e7\u00e3o de ensino (17).<\/p>\n<p>\u201cO que me chamou muita aten\u00e7\u00e3o, que eu considero muito mais alarmante do que os pr\u00f3prios pais, os pr\u00f3prios alunos em si, s\u00e3o as outras figuras que apareceram com um certo n\u00famero tamb\u00e9m destacado, embora menor. A gente tem superiores, diretores, coordenadores, e os pr\u00f3prios colegas [professores], que tamb\u00e9m est\u00e3o manifestando revisionismo\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cEm um espa\u00e7o que deveria ser de combate, de an\u00e1lise, de desmontagem dessas narrativas revisionistas, ela encontra ali dentro atores sociais que est\u00e3o endossando essas falas. Os professores que deveriam estar a favor do conhecimento cient\u00edfico, mas est\u00e3o ali se posicionando contra ele, comprando esses discursos revisionistas e trazendo para a escola. Isso me preocupa muito\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Na resposta de um dos question\u00e1rios da pesquisa, chamou a aten\u00e7\u00e3o de Zarotti o depoimento de um professor que apontou a a\u00e7\u00e3o de um int\u00e9rprete de libras, que deveria transmitir aos alunos com defici\u00eancia auditiva o conte\u00fado da fala do docente, mas s\u00f3 o fazia quando concordava com a abordagem. \u201cEle fala assim, h\u00e1 2 anos tinha uma aluna surda, o int\u00e9rprete s\u00f3 sinalizava aquilo que concordava. Chegou a passar aulas inteiras em sil\u00eancio quando abordei a ditadura militar\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa mostra ainda que os casos de revisionismo ideol\u00f3gico ocorrem principalmente nas turmas do \u00faltimo ano do ensino fundamental (9\u00ba), e nos tr\u00eas anos do ensino m\u00e9dio, principalmente no terceiro. Para o pesquisador, isso pode ser explicado pela quest\u00e3o et\u00e1ria dos alunos, e pelos temas hist\u00f3ricos que s\u00e3o previstos para serem tratados nas turmas desses anos.<\/p>\n<p>\u201cAli pelos 13, 14 anos, os alunos come\u00e7am a assumir uma postura mais questionadora, de embate com o professor. Isso vai se tornando mais comum, principalmente a partir do oitavo ano e o come\u00e7o do nono ano. Como se eles criassem mais coragem de testar os limites dos professores. Ent\u00e3o o revisionismo meio que d\u00e1 uma certa muni\u00e7\u00e3o para esses alunos entrarem em conflito com os professores\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>Segundo ele, nesse per\u00edodo, o conte\u00fado program\u00e1tico passa a abordar temas mais pol\u00eamicos, normalmente questionados pelos revisionistas. \u201c\u00c9 a \u00e9poca que a gente tem a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, que a gente tem o Stalinismo, o pr\u00f3prio Fascismo, Nazismo, a ditadura militar, que \u00e9 o grande ponto de maior tens\u00e3o. Todos eles ocorrem a partir do nono ano\u201d.<\/p>\n<p>Para Zarotti, o aparecimento nas escolas do revisionismo ideol\u00f3gico nos \u00faltimos anos pode ser entendido a partir da conflu\u00eancia de v\u00e1rios fatores, entre eles a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ideol\u00f3gica, presente h\u00e1 pelo menos 10 anos no pa\u00eds; o avan\u00e7o da internet e das redes sociais em uma arquitetura de bolhas, com pouco espa\u00e7o para a pluralidade; e a chegada da direita mais radical ao poder.<\/p>\n<p>\u201cIsso d\u00e1 um certo verniz de credibilidade para o movimento porque quando voc\u00ea v\u00ea uma pessoa chefe do executivo difundindo uma fala revisionista, isso meio que legitima o movimento para aquela pessoa que est\u00e1 ali mais ou menos no meio do caminho, que \u00e9 at\u00e9 uma direita mais moderada ou que est\u00e1 descontente com alguma coisa da situa\u00e7\u00e3o, ou que n\u00e3o tem uma outra fonte de informa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h2>Rea\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade<\/h2>\n<p>Segundo o professor da \u00e1rea de Ensino de Hist\u00f3ria da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Marcus Bomfim, uma das explica\u00e7\u00f5es para o aparecimento do negacionismo dentro das salas de aula e do questionamento do of\u00edcio do professor historiador est\u00e1 ligada \u00e0 rea\u00e7\u00e3o de classes sociais que viram seus privil\u00e9gios serem amea\u00e7ados a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo 20 no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cEstou me referindo, sobretudo, \u00e0 maior diversifica\u00e7\u00e3o do corpo de pessoas na universidade, maior distribui\u00e7\u00e3o de renda, a ascens\u00e3o social da classe D e E para classe C, da classe C para a classe B. Tudo isso, de alguma forma, evidenciou como o Brasil foi estruturado a partir de determinados privil\u00e9gios\u201d, destaca.<\/p>\n<p>De acordo com ele, esse processo passou a mostrar de forma clara a presen\u00e7a de privil\u00e9gios na sociedade, o que levou a uma rea\u00e7\u00e3o das classes privilegiadas contra essa nova leitura da realidade brasileira. \u201c[Isso] fez com que se criasse um movimento de refutar qualquer outra leitura de mundo que pudesse colocar em risco o status quo, que pudesse colocar em risco o que j\u00e1 estava colocado\u201d, avalia.<\/p>\n<p>\u201cQuando se produz leituras de mundo calcadas numa perspectiva democr\u00e1tica, de busca de maior justi\u00e7a social, de den\u00fancia de privil\u00e9gios, isso faz com que muita gente se sinta amea\u00e7ada. E, ao se sentir amea\u00e7ado, voc\u00ea, ao inv\u00e9s de discutir o argumento, normalmente voc\u00ea questiona o interlocutor. Voc\u00ea nomeia o professor como doutrinador. Come\u00e7a o processo de vigil\u00e2ncia maior e uma tentativa de equivaler conhecimento e opini\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Bomfim ressalta que o combate ao negacionismo dentro das salas de aula passa pela valoriza\u00e7\u00e3o dos docentes como intelectuais que participam da constru\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ensinado dentro das escolas. Os professores, por sua vez, devem focar nas leituras da realidade que s\u00e3o baseadas na preocupa\u00e7\u00e3o com a vida, com os direitos humanos e com a democracia.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se de que o professor assuma seu compromisso com a produ\u00e7\u00e3o de uma narrativa hist\u00f3rica na escola que articule os conte\u00fados produzidos pela ci\u00eancia hist\u00f3rica com valores focados no que eu chamo de democracia radical, a preocupa\u00e7\u00e3o com a vida, com os direitos humanos\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cInfinitas possibilidades existem para que narrativas hist\u00f3ricas estejam no dom\u00ednio do verdadeiro. Mas quando essas narrativas tensionam vidas, fazem com que algumas vidas sejam mais perec\u00edveis do que outras, ou, no outro extremo, que sejam mais dignas de viver do que outras, isso coloca em risco o pacto civilizat\u00f3rio\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ditadura militar brasileira e o nazifascismo s\u00e3o os temas mais contestados pelos revisionistas ideol\u00f3gicos,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[194],"class_list":["post-11741161","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","tag-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11741161","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11741161"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11741161\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11741162,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11741161\/revisions\/11741162"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11741161"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11741161"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11741161"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}