{"id":11771046,"date":"2025-07-22T08:51:00","date_gmt":"2025-07-22T12:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11771046"},"modified":"2025-07-22T07:43:18","modified_gmt":"2025-07-22T11:43:18","slug":"o-despertar-da-leitura-com-meu-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/o-despertar-da-leitura-com-meu-pai\/","title":{"rendered":"O despertar da leitura com meu Pai"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor<br><a href=\"mailto:wilsonaquino2012@gmail.com\">wilsonaquino2012@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n<p style=\"font-weight: 400;\">Enquanto meu irm\u00e3o, Rubens Aquino, nasceu com um gosto insaci\u00e1vel pelos livros, comigo a hist\u00f3ria foi diferente. Eu era da bola, da bolita, da pandorga, de fazer pi\u00e3o zunir na cal\u00e7ada e das correrias pelas matas e morros de Corumb\u00e1, nos anos 60. Vivia com a alma entregue \u00e0s aventuras do mundo real e imagin\u00e1rio. Mas foi ali, entre nossas brincadeiras e descobertas, que nosso pai, Manoel Dantas de Oliveira \u2014 um baiano marinheiro, destemido e vision\u00e1rio \u2014 decidiu nos apresentar a maior aventura de todas: a leitura.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Rubens, um ano mais velho que eu, j\u00e1 era \u00edntimo das letras desde cedo. Sua sensibilidade e criatividade o levaram, certa vez, a escrever uma reda\u00e7\u00e3o em homenagem ao Dia das M\u00e3es que foi parar na Prefeitura de Corumb\u00e1, onde foi lida e aplaudida por muitos. Para completar, ainda fez um desenho tocante de uma m\u00e3e \u2014 habilidade que sempre o acompanhou. Era o primeiro sinal de que aquele menino se tornaria poeta, professor, jornalista e escritor. E eu, que observava tudo, ainda seria duramente moldado por dentro para tentar seguir o mesmo caminho.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Percebendo que meu entusiasmo com os livros n\u00e3o era natural como o de Rubens, nosso pai decidiu agir. Estabeleceu uma rotina exigente, quase militar \u2014 como cabia a um marinheiro. Todos os dias, antes do sol nascer, \u00e0s 4 da manh\u00e3, o despertador nos chamava ao dever. \u00cdamos ao quintal, onde soc\u00e1vamos sacos, cheios de areia e serragem, aprendendo a bater com firmeza e sem nos machucar, para nos fortalecer e despertar. Depois, banho gelado e, finalmente, a mesa de estudos, onde nosso pai j\u00e1 nos esperava lendo seu jornal ou um de seus livros prediletos. Aquilo virou ritual.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Com o tempo, os livros deixaram de ser um peso e passaram a ser companheiros. E foi a\u00ed que o gosto pela leitura realmente floresceu em mim. Nossas descobertas iam se ampliando gra\u00e7as ao &#8220;Reembolso postal&#8221;, sistema que nos permitia comprar livros pelos Correios. Com Rubens, aprendi a buscar sabedoria at\u00e9 nas promo\u00e7\u00f5es: certa vez, sugeri escolher de gra\u00e7a o livro mais caro nas ofertas &#8220;compre 2, leve 3&#8221;. Sa\u00eda mais em conta, e assim multiplic\u00e1vamos nossos tesouros. Pode parecer uma conta \u00f3bvia, mas n\u00e3o para um menino de 7 ou 8 anos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Uma dessas aventuras nos levou ao improv\u00e1vel: adquirimos um livro sobre t\u00e9cnica de hipnotismo. Curiosos como sempre, Rubens e eu testamos a t\u00e9cnica em nosso irm\u00e3o mais novo, Edson. O resultado? Edson dormiu t\u00e3o profundamente que caiu da cadeira, e levamos um bom tempo tentando acord\u00e1-lo. Encerramos por ali essa linha de aprendizado!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas a paix\u00e3o mesmo estava nos livros de aventura, nos mundos imagin\u00e1rios, nas hist\u00f3rias que nos levavam para onde os p\u00e9s n\u00e3o alcan\u00e7avam. Numa cidade ainda sem televis\u00e3o, o cinema era um espet\u00e1culo. Me lembro da primeira vez que fomos ao Cine Santa Cruz: era um faroeste. Ao primeiro tiro disparado na tela, os tr\u00eas irm\u00e3os \u2014 verdadeiros &#8220;patetas&#8221; \u2014 se jogaram atr\u00e1s das poltronas, apavorados, achando que as balas sairiam da tela. Depois do susto, nos tornamos frequentadores ass\u00edduos e contadores das hist\u00f3rias que assist\u00edamos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 noite, quando o calor corumbaense dava tr\u00e9gua e as estrelas apareciam no c\u00e9u limpo, nossos pais arrastavam suas cadeiras at\u00e9 a cal\u00e7ada para conversar com os vizinhos. Ali, sob o olhar atento e afetuoso dos adultos, n\u00f3s, as crian\u00e7as, nos reun\u00edamos na outra ponta da cal\u00e7ada, como se fosse um palco improvisado. Era o nosso momento de brilhar. Rubens e eu cont\u00e1vamos, com riqueza de detalhes e muita imagina\u00e7\u00e3o, as hist\u00f3rias dos filmes que assist\u00edamos e dos livros que l\u00edamos. E, quando acabavam os filmes, a inspira\u00e7\u00e3o vinha. Invent\u00e1vamos enredos, misturando cowboys, piratas, monstros e her\u00f3is. A crian\u00e7ada ficava fascinada. Riam, se assustavam, se emocionavam. Era como se o cinema e a literatura tivessem se materializado ali, naquele peda\u00e7o de ch\u00e3o em frente \u00e0 nossa casa, na Rua 21 de Setembro, 350.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esse h\u00e1bito noturno nos ajudou a desenvolver n\u00e3o s\u00f3 a criatividade, mas tamb\u00e9m a orat\u00f3ria, a empatia e o senso de responsabilidade com aquilo que diz\u00edamos. Aprendemos desde cedo que contar uma hist\u00f3ria \u00e9 uma arte \u2014 e que as palavras t\u00eam poder. O olhar de orgulho dos nossos pais, entre uma prosa e outra com os vizinhos, era um combust\u00edvel silencioso para continuarmos aprimorando essa habilidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Com o tempo, come\u00e7amos a escrever tamb\u00e9m nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias. Os cadernos passaram a ser nossos cofres de ideias, onde guard\u00e1vamos contos, rascunhos de livros, projetos de mundos imagin\u00e1rios que, anos depois, tomariam forma mais concreta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Essas experi\u00eancias moldaram nosso car\u00e1ter e nossas escolhas profissionais. A leitura abriu portas para o entendimento do mundo, da f\u00e9, das pessoas e de n\u00f3s mesmos. Ela nos deu repert\u00f3rio, sensibilidade e vis\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que foi um alicerce sobre o qual constru\u00edmos nossas vidas no jornalismo e como professores e escritores \u2014 e tudo isso come\u00e7ou com o exemplo de um pai que, l\u00e1 atr\u00e1s, decidiu acordar dois meninos de madrugada para ler, sonhar e transformar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Hoje, Rubens \u00e9 autor publicado, inclusive de literatura infantil, jornalista e professor aposentado (n\u00e3o de sua escrivaninha onde junta as palavras nas suas mais belas formas). \u00c9 autor tamb\u00e9m de belas letras musicais, feitas com seu inestim\u00e1vel amigo, Jos\u00e9 Boaventura S\u00e1 Rosa, um m\u00fasico extraordin\u00e1rio que faleceu precocemente h\u00e1 alguns anos. E eu, embora ainda com livros a finalizar, carrego o mesmo amor pelas palavras e pela miss\u00e3o de inspirar. Tudo isso devemos, antes de tudo, a Deus \u2014 por nos conceder dons t\u00e3o sublimes \u2014 e ao nosso pai, que nos mostrou que a leitura n\u00e3o \u00e9 apenas um h\u00e1bito: \u00e9 uma janela para o mundo e para a alma.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Num tempo em que tantas fam\u00edlias se perguntam como despertar o gosto pela leitura nos filhos, deixo aqui, com orgulho, o exemplo de meu pai: presen\u00e7a firme, rotina disciplinada e, acima de tudo, amor e vis\u00e3o. Porque ler \u00e9 muito mais do que decifrar letras. \u00c9 descobrir-se.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professorwilsonaquino2012@gmail.com Enquanto meu irm\u00e3o, Rubens Aquino, nasceu com um gosto&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":11770852,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11771046","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11771046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11771046"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11771046\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11771047,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11771046\/revisions\/11771047"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11770852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11771046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11771046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11771046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}