{"id":11771766,"date":"2025-08-06T08:54:00","date_gmt":"2025-08-06T12:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11771766"},"modified":"2025-08-06T08:47:35","modified_gmt":"2025-08-06T12:47:35","slug":"licoes-com-o-sofrimento-alheio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/licoes-com-o-sofrimento-alheio\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es com o sofrimento alheio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor<br><a href=\"mailto:wilsonaquino2012@gmail.com\">wilsonaquino2012@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n<p style=\"font-weight: 400;\">Era in\u00edcio dos anos 90. Jovem rep\u00f3rter, com sonhos efervescentes e planos a perder de vista, eu havia acabado de receber uma quantia significativa por um trabalho jornal\u00edstico extra. Caminhava feliz pela Rua 26 de Agosto, em Campo Grande, com a mente tomada por ideias sobre como aproveitar aquele dinheiro num feriado prolongado de Carnaval que se anunciava. Sentia-me realizado. Mas a vida, com sua maneira peculiar de ensinar, colocou diante de mim uma cena que interrompeu bruscamente aqueles pensamentos festivos e abriu em mim uma ferida doce: o despertar da compaix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foi numa esquina com a Rua 13 de Maio que os vi. Uma fam\u00edlia inteira \u2014 pai, m\u00e3e e quatro crian\u00e7as \u2014 avan\u00e7ava lentamente pela cal\u00e7ada, carregando nas m\u00e3os sacolas, malas e no corpo o peso vis\u00edvel de uma vida sofrida. A m\u00e3e levava ao colo um beb\u00ea visivelmente enfermo, e mesmo exausta, equilibrava com o outro bra\u00e7o uma bagagem pesada. As crian\u00e7as, todas pequenas, se esfor\u00e7avam para ajudar. A imagem parecia ter sa\u00eddo de um livro de realismo dolorido: roupas surradas, rostos p\u00e1lidos, olhos fundos, mas&#8230; nenhum murm\u00fario, nenhuma reclama\u00e7\u00e3o. Apenas a dignidade silenciosa dos que j\u00e1 nasceram em luta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A cena ficou ainda mais angustiante quando o beb\u00ea, em meio ao esfor\u00e7o da caminhada, lan\u00e7ou um jato de v\u00f4mito ao ch\u00e3o. A m\u00e3e mal teve tempo de reagir. Apenas parou. Foi quando me aproximei, chocado e comovido, e ofereci ajuda. Pararam a caminhada e as crian\u00e7as, aproveitaram para descansar. Conversamos. Eram do Nordeste brasileiro. Haviam sido contratados para trabalhar numa propriedade rural no interior de Mato Grosso do Sul, mas foram dispensados sem aviso, sem recursos, sem acolhimento. O capataz os deixou pr\u00f3ximos \u00e0 rodovi\u00e1ria com alguns trocados e nenhum destino. Campo Grande era apenas mais uma cidade no meio de um caminho incerto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Enquanto escutava aquele relato, olhava para os pequenos. Um deles, o mais velho, devia ter uns 10 anos. A express\u00e3o do seu rosto n\u00e3o era a de uma crian\u00e7a, mas de um adulto calejado. Sustentava com firmeza a sacola que carregava e parecia determinado a n\u00e3o fraquejar diante dos pais e dos irm\u00e3os menores. Era como se j\u00e1 soubesse que a vida n\u00e3o lhe daria tr\u00e9guas. Nunca mais esqueci aquele olhar \u2014 firme, silencioso, respons\u00e1vel. Aquela crian\u00e7a, naquele instante, parecia mais madura do que muitos adultos que conheci na vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sem pensar duas vezes, tirei do bolso todo o valor que havia recebido e entreguei ao pai da fam\u00edlia. Ele recusou de imediato. Disse que era muito dinheiro. Mas insisti, pedi que usassem para resolver as necessidades mais urgentes, sobretudo o tratamento da crian\u00e7a. A m\u00e3e, em l\u00e1grimas contidas, me agradeceu. Eu me afastei, com o cora\u00e7\u00e3o apertado, tentando evitar que devolvessem. Mas ao andar algumas quadras, fui tomado por um sentimento de arrependimento. Eu deveria ter feito mais. Poderia t\u00ea-los levado a algum abrigo, buscado uma institui\u00e7\u00e3o, indicado um trabalho. Voltei ao local. Procurei em v\u00e3o. Eles haviam desaparecido pelas ruas da cidade. E eu fiquei com aquela cena gravada na alma para sempre. Ajudar \u00e9 necess\u00e1rio. Mas ajudar com planejamento e responsabilidade \u00e9 ainda mais valioso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esses sentimentos n\u00e3o nasceram por acaso. Desde pequeno fui levado a observar o outro com os olhos da empatia. Lembro de um epis\u00f3dio da inf\u00e2ncia, em Corumb\u00e1. Certo dia, fui chamar um colega para irmos juntos \u00e0 escola. Ao chegar \u00e0 sua casa, vi seus irm\u00e3os \u00e0 mesa, almo\u00e7ando apenas arroz branco. Aquilo me cortou o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era um acaso, percebi depois. A escassez ali era rotina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Naquela \u00e9poca, meu pai, Manoel Dantas de Oliveira, que j\u00e1 havia deixado a Marinha, trabalhava agora comandando navios do Servi\u00e7o de Navega\u00e7\u00e3o da Bacia do Prata, costumava trazer muitos alimentos quando voltava das viagens: sacos de charque, arroz, feij\u00e3o, farinha, rapadura, frutas, legumes, queijo&#8230; Nossa casa era farta. Diante da cena de mis\u00e9ria, n\u00e3o hesitei: peguei uma sacola, escondido, e juntei alguns alimentos para levar \u00e0 fam\u00edlia do meu amigo. Minha m\u00e3e, Dair Aquino, ao perceber meu movimento, me deteve para conversar. N\u00e3o me censurou. Mas me ensinou. Deu-me um longo e firme serm\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da honestidade, mesmo diante de causas nobres. Disse que ser honesto com os pais era tamb\u00e9m uma forma de ser digno diante de Deus. E, ao final, me ajudou a completar a sacola e me acompanhou no gesto de doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aquela foi apenas uma varia\u00e7\u00e3o de uma li\u00e7\u00e3o anterior que meu pai me ensinara quando eu tinha cerca de oito anos. Certo dia, no caminho de volta da escola, encontrei uma bola de futebol novinha entre uns arbustos. Corri para casa com ela, feliz da vida. Mas a alegria durou pouco. Meu Pai me olhou nos olhos e disse, com a calma dos homens justos: &#8220;Essa bola n\u00e3o \u00e9 sua. Ela tem dono. E se tem dono, voc\u00ea n\u00e3o pode ficar com ela.&#8221; E me fez voltar ao local e deix\u00e1-la onde a havia encontrado. Aquilo me custou l\u00e1grimas e frustra\u00e7\u00e3o, mas foi uma das maiores li\u00e7\u00f5es de retid\u00e3o que recebi na vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Hoje, olhando para essas e tantas outras hist\u00f3rias ao longo de minha jornada, percebo o quanto somos moldados pelas dores nossas e dos outros \u2014 e tamb\u00e9m pelas li\u00e7\u00f5es dos nossos pais. O sofrimento alheio \u00e9 uma escola que n\u00e3o cobra matr\u00edcula, mas exige sensibilidade para aprender. Ele nos humaniza, nos tira do centro do mundo e nos lembra que sempre h\u00e1 quem precise de n\u00f3s \u2014 de nossa aten\u00e7\u00e3o, de nosso tempo, de nosso olhar, de nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Que possamos, todos n\u00f3s, aprender a olhar para o pr\u00f3ximo com mais empatia. Que n\u00e3o passemos indiferentes pelos que sofrem \u00e0 nossa volta. \u00c0s vezes, a maior b\u00ean\u00e7\u00e3o que podemos oferecer n\u00e3o \u00e9 o que damos, mas o modo como nos envolvemos. O mundo precisa de mais m\u00e3os estendidas, cora\u00e7\u00f5es atentos e gestos concretos de amor.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Como ensinou o Senhor Jesus Cristo:\u00a0<b><strong>&#8220;Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irm\u00e3os, a mim o fizestes.&#8221;<\/strong><\/b>\u00a0(Mateus 25:40). E ainda:\u00a0<b><strong>&#8220;Quando estais a servi\u00e7o de vosso pr\u00f3ximo, estais somente a servi\u00e7o de vosso Deus.&#8221;<\/strong><\/b><br \/>(Mosias 2:17 \u2014 O Livro de M\u00f3rmon)<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Que essas palavras nos inspirem a sermos mais sens\u00edveis, generosos e prontos a agir. Se cada um de n\u00f3s fizer um pouco, esse pouco pode se tornar tudo na vida de algu\u00e9m.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professorwilsonaquino2012@gmail.com Era in\u00edcio dos anos 90. 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