{"id":11772796,"date":"2025-08-26T10:06:00","date_gmt":"2025-08-26T14:06:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11772796"},"modified":"2025-08-26T09:06:41","modified_gmt":"2025-08-26T13:06:41","slug":"jornalismo-do-chumbo-ao-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/jornalismo-do-chumbo-ao-digital\/","title":{"rendered":"Jornalismo, do chumbo ao digital"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Wilson Aquino<br><\/strong>Jornalista e Professor<br><a href=\"mailto:wilsonaquino2012@gmail.com\">wilsonaquino2012@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n<p style=\"font-weight: 400;\">Assim como acontece na vida, em que olhar para tr\u00e1s nos ajuda a valorizar o que somos e o que temos hoje, o jornalismo tamb\u00e9m se enriquece quando resgata sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Quem v\u00ea um rep\u00f3rter nos dias atuais cobrindo fatos em tempo real com um iPhone ou smartphone \u2014 fotografando, filmando, gravando entrevistas, editando o material ali mesmo e postando em sites de not\u00edcias, redes sociais ou enviando tudo por WhatsApp, e-mail ou plataformas como WeTransfer para as reda\u00e7\u00f5es \u2014 dificilmente imagina como era a pr\u00e1tica jornal\u00edstica h\u00e1 meio s\u00e9culo e muito menos todo o caminho percorrido at\u00e9 chegarmos aqui.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu, que atuo como jornalista h\u00e1 47 anos, tenho plena consci\u00eancia do privil\u00e9gio de ser testemunha viva e praticante de toda essa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, quando comecei minha trajet\u00f3ria, primeiro como office boy, no jornal\u00a0<b><strong>Correio Braziliense Di\u00e1rio da Serra<\/strong><\/b>, em Campo Grande, as mat\u00e9rias eram escritas em m\u00e1quinas de escrever manuais. Depois de revisadas por um\u00a0<b><strong>copy desk<\/strong><\/b>\u00a0\u2014 normalmente professores de L\u00edngua Portuguesa especializados em linguagem jornal\u00edstica, como era nosso querido professor Dalton Santiago \u2014 eram encaminhadas ao Departamento de Pol\u00edcia Federal, respons\u00e1vel pela censura imposta pelo regime militar, para aprova\u00e7\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o seguiam para a oficina do jornal, onde os textos eram reproduzidos no sistema de\u00a0<b><strong>linotipia<\/strong><\/b>, em que cada palavra era montada letra por letra, de tr\u00e1s para frente, para formar os &#8220;clich\u00eas&#8221; usados na impress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A oficina do jornal era um espet\u00e1culo \u00e0 parte. O cheiro forte da tinta misturado ao calor do chumbo derretido impregnava o ar, enquanto o barulho compassado das linotipos criava uma sinfonia met\u00e1lica que ecoava noite adentro. Cada profissional tinha sua fun\u00e7\u00e3o precisa, como em uma grande orquestra, e qualquer erro poderia comprometer a p\u00e1gina inteira. Para um jovem aprendiz como eu, era fascinante ver como, atrav\u00e9s de textos datilografados, surgia aos poucos a forma f\u00edsica de um jornal, com colunas, t\u00edtulos e imagens se transformando em not\u00edcia impressa em preto e branco.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A diagrama\u00e7\u00e3o exigia precis\u00e3o e talento. Profissionais como\u00a0<b><strong>Suely Higa<\/strong><\/b>, irm\u00e3 do fot\u00f3grafo Roberto Higa, e\u00a0<b><strong>Jo\u00e3o Bispo do Nascimento<\/strong><\/b>\u00a0\u2014 que descobriu sua voca\u00e7\u00e3o para o jornalismo ap\u00f3s virar not\u00edcia, sobrevivendo a um acidente com um fio de alta tens\u00e3o de um poste que caiu, transformando-se em um dos melhores profissionais da \u00e1rea \u2014 faziam c\u00e1lculos minuciosos de espa\u00e7o para textos, t\u00edtulos e imagens. E n\u00e3o bastava apenas encaixar as pe\u00e7as. Era preciso est\u00e9tica e arte para valorizar a mat\u00e9ria, a p\u00e1gina, o jornal. As fotografias, por sua vez, eram transformadas em clich\u00eas de metal, arquivados em prateleiras que chegavam ao teto. Havia at\u00e9 um arquivista respons\u00e1vel por localizar rapidamente imagens de autoridades, pol\u00edticas, obras, esportes e demais editorias.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Naqueles tempos, a censura n\u00e3o era apenas uma palavra, mas uma presen\u00e7a constante nas reda\u00e7\u00f5es. Lembro-me da afli\u00e7\u00e3o de colegas aguardando a libera\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias sens\u00edveis, muitas vezes j\u00e1 diagramadas e prontas para impress\u00e3o. Bastava um carimbo de &#8220;vetado&#8221; para todo o trabalho ser desfeito em minutos. Alguns rep\u00f3rteres buscavam formas criativas de driblar os censores, trocando palavras, suavizando express\u00f5es ou deslocando a cr\u00edtica para entrelinhas que s\u00f3 o leitor mais atento percebia. Viver sob esse clima de vigil\u00e2ncia era um desafio, mas tamb\u00e9m forjou gera\u00e7\u00f5es de jornalistas determinados a n\u00e3o abrir m\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Recordo-me da tens\u00e3o de colegas como\u00a0<b><strong>Valdir Cardoso<\/strong><\/b>\u00a0(mais tarde vereador),\u00a0<b><strong>Francisco Lagos<\/strong><\/b>,\u00a0<b><strong>S\u00edlvio Martins<\/strong><\/b>,\u00a0<b><strong>Waldemar Hozano<\/strong><\/b>\u00a0e\u00a0<b><strong>Guilherme Filho<\/strong><\/b>, entre tantos outros, quando aguardavam a aprova\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias pol\u00edticas mais sens\u00edveis. O jornalismo vivia sob vigil\u00e2ncia, mas n\u00e3o perdia sua garra.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Do ponto de vista tecnol\u00f3gico, al\u00e9m das entrevistas presenciais ou por telefone, as reda\u00e7\u00f5es contavam com o\u00a0<b><strong>telex<\/strong><\/b>, que cuspia em longas tiras de papel as not\u00edcias nacionais e internacionais. Para as fotografias externas, inicialmente depend\u00edamos de \u00f4nibus intermunicipais ou interestaduais para transportar filmes. Algu\u00e9m do jornal tinha que ir \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria para esperar a chegada do \u00f4nibus para pegar o material com o motorista para ent\u00e3o voltar \u00e0 reda\u00e7\u00e3o e revelar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foi com a mesma surpresa de quem assiste a um milagre que vimos pela primeira vez uma fotografia chegar pela linha telef\u00f4nica. Demorava longos minutos para que a imagem se revelasse, linha por linha, no papel especial, mas era emocionante presenciar a tecnologia encurtando dist\u00e2ncias. O telex, por sua vez, trazia not\u00edcias do mundo em tiras intermin\u00e1veis de papel perfurado. De repente, uma reda\u00e7\u00e3o em Campo Grande podia ter acesso quase simult\u00e2neo a fatos ocorridos em Bras\u00edlia, Nova Iorque ou Paris. Aquilo ampliava horizontes e dava a sensa\u00e7\u00e3o de que o jornalismo local estava conectado ao planeta inteiro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pouco depois surgiu o\u00a0<b><strong>fax<\/strong><\/b>, ou &#8220;fax s\u00edmile&#8221;, que permitia enviar textos, documentos e imagens em poucos minutos. &#8220;Vou te mandar um fax&#8221; era, na \u00e9poca, s\u00edmbolo de modernidade e sofistica\u00e7\u00e3o. Assim, passo a passo, o jornalismo foi deixando o chumbo e o clich\u00ea met\u00e1lico para abra\u00e7ar a inform\u00e1tica, os computadores, a diagrama\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, as reda\u00e7\u00f5es informatizadas e, por fim, o universo digital, que ainda hoje continua em plena transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Comparar aquele tempo com o presente \u00e9 inevit\u00e1vel. Antes, uma not\u00edcia podia levar dias para chegar ao leitor, seja por \u00f4nibus, avi\u00e3o ou correio; hoje, ela surge na palma da m\u00e3o em segundos. O jornalista que antes dependia de linotipos, clich\u00eas de chumbo e longos processos de aprova\u00e7\u00e3o, agora tem a tecnologia como aliada imediata. Mas \u00e9 justamente nesse contraste que est\u00e1 a grande li\u00e7\u00e3o: embora os instrumentos mudem, a ess\u00eancia permanece. A velocidade n\u00e3o pode se sobrepor \u00e0 responsabilidade, nem a facilidade substituir a investiga\u00e7\u00e3o. A miss\u00e3o maior continua a mesma: servir \u00e0 sociedade com informa\u00e7\u00e3o de qualidade e, sobretudo, verdadeira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Olhar para esse passado n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia, mas de valoriza\u00e7\u00e3o. \u00c9 lembrar que se, por um lado, a tecnologia trouxe velocidade e recursos inimagin\u00e1veis, por outro, n\u00e3o pode substituir a ess\u00eancia da profiss\u00e3o. Cabe ao jornalista manter o compromisso de investigar, apurar e analisar com rigor, \u00e9tica e responsabilidade, garantindo que a sociedade receba informa\u00e7\u00e3o de qualidade e, acima de tudo, verdadeira. Porque, acima de qualquer inova\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o do jornalismo continua sendo a verdade dos fatos.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson AquinoJornalista e Professorwilsonaquino2012@gmail.com Assim como acontece na vida, em que olhar para tr\u00e1s nos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":11772797,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11772796","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11772796","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11772796"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11772796\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11772798,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11772796\/revisions\/11772798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11772797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11772796"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11772796"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11772796"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}