{"id":11773095,"date":"2025-09-03T08:52:00","date_gmt":"2025-09-03T12:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11773095"},"modified":"2025-09-03T09:07:43","modified_gmt":"2025-09-03T13:07:43","slug":"o-fantasma-da-redacao-do-diario-da-serra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/o-fantasma-da-redacao-do-diario-da-serra\/","title":{"rendered":"O fantasma da reda\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio da Serra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor<\/strong><\/p>\n\n\n<p style=\"font-weight: 400;\">Durante d\u00e9cadas, desde os anos 60, o Di\u00e1rio da Serra, de Campo Grande \u2013Fundado em 29\/05\/68 por Assis Chateaubriand &#8211; fez hist\u00f3ria no jornalismo sul-mato-grossense (ent\u00e3o Mato Grosso uno), como parte do poderoso grupo Di\u00e1rios Associados, que reunia ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds. Foi um ber\u00e7o de grandes profissionais, que imprimiam talento, coragem e dedica\u00e7\u00e3o em cada edi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 seu encerramento, no dia 15 de novembro de 1998, tr\u00eas anos depois de vendido para o empres\u00e1rio e jornalista Ant\u00f4nio Jo\u00e3o Hugo Rodrigues, um dos donos do principal concorrente, o Correio do Estado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Entre as d\u00e9cadas de 70 e 90, a disputa entre os dois jornais lembrava os eternos cl\u00e1ssicos Oper\u00e1rio X Comercial ou at\u00e9 mesmo um Fla X Flu: cada manchete, cada capa, cada reportagem era um embate palmo a palmo. A pol\u00edtica e o esporte eram as editorias mais disputadas, mas em todas as \u00e1reas havia o empenho de vencer o concorrente na corrida pelo furo de reportagem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eram tempos de jornalistas aguerridos, que cultivavam fontes estrat\u00e9gicas tanto na esfera p\u00fablica quanto na privada. Cada rep\u00f3rter vivia a adrenalina da not\u00edcia e, no dia seguinte, corria cedo \u00e0s bancas de revista ou \u00e0 reda\u00e7\u00e3o para ver sua mat\u00e9ria impressa, comparando imediatamente com a cobertura do &#8220;advers\u00e1rio&#8221;. Esse duelo silencioso era combust\u00edvel para o aperfei\u00e7oamento constante.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A concorr\u00eancia, no entanto, era saud\u00e1vel. Longe de enfraquecer o jornalismo local, fortalecia-o. Quem mais ganhava era o leitor, que recebia informa\u00e7\u00e3o de qualidade, an\u00e1lises aprofundadas e ampla cobertura dos fatos que moldavam a vida pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural da cidade e do Estado, que se dividiu em 1977, com a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Mato Grosso do Sul naquele ano. Cada edi\u00e7\u00e3o era uma esp\u00e9cie de presta\u00e7\u00e3o de contas \u00e0 sociedade, que, por sua vez, alimentava o h\u00e1bito de acompanhar de perto os acontecimentos e de formar opini\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Essa disputa editorial tamb\u00e9m obrigava as reda\u00e7\u00f5es a inovarem. O esfor\u00e7o para publicar reportagens exclusivas, trazer entrevistas in\u00e9ditas e explorar novos formatos era constante. O jornalismo, assim, n\u00e3o se acomodava: vivia em ebuli\u00e7\u00e3o, sempre em busca de oferecer ao p\u00fablico algo a mais. O trabalho coletivo, somado ao orgulho de vestir a camisa de um ve\u00edculo, transformava rep\u00f3rteres, fot\u00f3grafos, diagramadores e editores em verdadeiros oper\u00e1rios da not\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Di\u00e1rio da Serra, onde comecei e atuei por muitos anos, buscava modernizar-se nos processos de impress\u00e3o, que evoluiram mais rapidamente, enquanto a reda\u00e7\u00e3o ainda preservava o charme barulhento das Remington, Olivetti e Lexicon. Ao cair da tarde, quando todas as editorias se apressavam para fechar os textos do dia, o ambiente virava uma sinfonia \u00fanica. O tilintar das m\u00e1quinas de escrever formava uma orquestra sem maestro, mas com um som inconfund\u00edvel: o som da not\u00edcia nascendo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foi nesse cen\u00e1rio vibrante que, em meados dos anos 80, apareceu um novo vigilante noturno do jornal, de nome Adelson. Caberia a ele cuidar do pr\u00e9dio da Rua Engenheiro Roberto Mange, das 18h \u00e0s 6h da manh\u00e3 seguinte. Em seu primeiro dia, ficou impressionado com a velocidade com que rep\u00f3rteres transformavam ideias em palavras, batendo forte nas teclas, como se cada mat\u00e9ria fosse um combate contra o tempo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 noite, por\u00e9m, a cena mudou radicalmente. Ap\u00f3s as 21h, a reda\u00e7\u00e3o mergulhou em um sil\u00eancio absoluto. Adelson, sozinho em sua guarita, percorria o pr\u00e9dio para usar a copa ou o banheiro. E, numa dessas idas e vindas, na madrugada desse primeiro dia, decidiu novamente atravessar a reda\u00e7\u00e3o que tanto o havia encantado algumas horas antes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Acendeu as luzes. Caminhou entre as mesas alinhadas, agora im\u00f3veis. Tudo estava quieto demais. Por alguns instantes sentiu falta daquela sinfonia das m\u00e1quinas em pleno tilintar como testemunhara algumas horas antes. Foi quando divagava nessas lembran\u00e7as que o improv\u00e1vel aconteceu, rompendo o sil\u00eancio absoluto daquela sala: uma m\u00e1quina de escrever come\u00e7ou a datilografar sozinha.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As teclas batiam r\u00e1pidas, o papel rolava, palavras se formavam sem que houvesse algu\u00e9m diante dela. Adelson, paralisado, sentiu o corpo gelar. Seu cora\u00e7\u00e3o acelerou, os pelos se eri\u00e7aram, as pernas simplesmente se recusavam a obedec\u00ea-lo. Ele assistia, incr\u00e9dulo, \u00e0quela cena de puro assombro: a reda\u00e7\u00e3o estava vazia, mas o som da datilografia ecoava vivo e ele vendo tudo, im\u00f3vel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Com esfor\u00e7o, conseguiu recuar e, tr\u00eamulo, correu de volta \u00e0 guarita. Passou o resto da madrugada ali, em estado de choque, esperando a manh\u00e3 chegar. \u00c0s 6 horas abandonou o posto decidido: nunca mais voltaria \u00e0quele jornal mal-assombrado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No dia seguinte, comunicou \u00e0 empresa de seguran\u00e7a em que trabalhava, que n\u00e3o iria mais retornar ao pr\u00e9dio, por conta do fantasma da reda\u00e7\u00e3o. A not\u00edcia se espalhou rapidamente e deu muito o que falar entre os jornalistas e funcion\u00e1rios, que deram muitas risadas pois o que Adelson n\u00e3o sabia e a dire\u00e7\u00e3o da empresa de seguran\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o, era que o que fora ativado naquela noite e que assombrou o seguran\u00e7a foi o revolucion\u00e1rio Telex que entrava em opera\u00e7\u00e3o a qualquer momento, trazendo not\u00edcias e informa\u00e7\u00f5es de centrais de outros Estados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Adelson nunca mais voltou. Para ele, n\u00e3o havia explica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que desfizesse a cena presenciada: a m\u00e1quina datilografando sozinha, como se guiada por m\u00e3os invis\u00edveis de um fantasma na reda\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio da Serra.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor Durante d\u00e9cadas, desde os anos 60, o Di\u00e1rio da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":31695,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11773095","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11773095"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773095\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11773096,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773095\/revisions\/11773096"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31695"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11773095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11773095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11773095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}