{"id":11773255,"date":"2025-09-08T08:56:00","date_gmt":"2025-09-08T12:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11773255"},"modified":"2025-09-08T09:25:40","modified_gmt":"2025-09-08T13:25:40","slug":"4-dias-no-mato-sem-cachorro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/4-dias-no-mato-sem-cachorro\/","title":{"rendered":"4 Dias no mato sem cachorro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor<br><a href=\"mailto:wilsonaquino2012@gmail.com\">wilsonaquino2012@gmail.com<\/a><\/p>\n\n\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em meados dos anos 80 \u2014 julho de 1984, salvo engano \u2014 estourou um violento conflito entre \u00edndios e fazendeiros na regi\u00e3o de Miranda, em Mato Grosso do Sul. Houve tiroteio, mortos e feridos, al\u00e9m de inc\u00eandios em aldeias e propriedades rurais. O clima era de guerra. Para conter a situa\u00e7\u00e3o, deslocaram-se para l\u00e1 policiais civis, militares e federais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Na reda\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio da Serra, nosso editor-chefe, Silvio Martins Martinez, decidiu enviar uma equipe para cobrir os fatos na manh\u00e3 do dia seguinte. A miss\u00e3o coube a mim e ao fot\u00f3grafo Paulo Ribas, conduzidos pelo mais habilidoso, respons\u00e1vel e companheiro motorista com quem j\u00e1 trabalhei: meu xar\u00e1, Wilson Rosa. O plano era simples: chegarmos cedo ao local, colher informa\u00e7\u00f5es, registrar imagens e retornar a Campo Grande no final da tarde.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o foi o que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Depois de chegarmos a Miranda, seguimos por um longo trecho de estradas vicinais at\u00e9 o acampamento das for\u00e7as policiais, instalado em plena mata. A tens\u00e3o era percept\u00edvel at\u00e9 entre os pr\u00f3prios policiais, pois os ataques podiam acontecer a qualquer momento, de qualquer dos lados. Sem possibilidade de manter contato com a reda\u00e7\u00e3o, e diante da gravidade dos fatos, reuni minha equipe e tomamos juntos a decis\u00e3o de permanecermos por mais tempo ali. A responsabilidade da not\u00edcia falou mais alto. Est\u00e1vamos sem roupas extras, sem preparo para uma perman\u00eancia longa, mas com a consci\u00eancia de que n\u00e3o pod\u00edamos simplesmente voltar sem levar aos leitores a dimens\u00e3o real do que se passava. Dormimos nos bancos do nosso velho Fusca, partilhamos refei\u00e7\u00f5es dos policiais, que nos receberam muito bem e aguardamos, sempre alertas. O Di\u00e1rio da Serra era o \u00fanico ve\u00edculo de imprensa do Estado fazendo a cobertura.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O clima, em vez de melhorar, piorou. Houve novos confrontos e a tens\u00e3o cresceu ainda mais. A chuva torrencial e o frio n\u00e3o foram suficientes para arrefecer os \u00e2nimos. Assim, ficamos ali por quatro dias, sem direito sequer a um banho \u2014 quente ou frio. O jornalismo nos cobrava, e permanecemos firmes. A decis\u00e3o de permanecer at\u00e9 ali foi dura, mas tomada em nome da verdade que t\u00ednhamos o dever de registrar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foram dias de sobreviv\u00eancia. Divid\u00edamos pequenas por\u00e7\u00f5es de comida com policiais, us\u00e1vamos jornais como cobertores improvisados dentro do Fusca e enfrent\u00e1vamos noites longas e frias. A cada estalo na mata, a incerteza de um poss\u00edvel ataque nos tirava o sono. O corpo sofria com o cansa\u00e7o, mas o esp\u00edrito permanecia aceso pela convic\u00e7\u00e3o de que est\u00e1vamos ali para cumprir uma miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o nego que em alguns momentos me questionei sobre at\u00e9 onde valia arriscar tanto em nome da not\u00edcia. Mas a resposta sempre vinha: o jornalismo n\u00e3o se faz \u00e0 dist\u00e2ncia, nem com vers\u00f5es incompletas. Permanecemos porque sab\u00edamos que, se recu\u00e1ssemos, a hist\u00f3ria seria contada por outros, talvez sem a fidelidade e a coragem necess\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A decis\u00e3o de resistir tamb\u00e9m foi um exerc\u00edcio de coleguismo. Paulo Ribas, com sua c\u00e2mera sempre pronta, e Wilson Rosa, com sua calma no volante e no trato, foram companheiros de trincheira. Havia entre n\u00f3s um pacto silencioso, como ocorre ainda hoje nas equipes de jornalismo, principalmente os impressos e TV, quando se formam equipes que se tornam afinadas para as coberturas: n\u00e3o deixar\u00edamos a verdade escapar, mesmo que isso custasse mais dias de sacrif\u00edcio. Essa uni\u00e3o foi essencial para suportarmos a press\u00e3o psicol\u00f3gica e f\u00edsica do ambiente hostil.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ao final do quarto dia, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a dar sinais de controle, permitindo nossa sa\u00edda do local, com um bom acervo fotogr\u00e1fico e de informa\u00e7\u00f5es. Quando enfim retornamos, j\u00e1 em Miranda, deparamo-nos com outro grande caso policial. Conseguimos as primeiras fotos de quatro jovens turistas que viajavam pelo Pantanal e que foram brutalmente assassinados por coureiros \u2014 ca\u00e7adores de jacar\u00e9s que atuavam no tr\u00e1fico de peles. Os rapazes e uma mo\u00e7a foram covardemente transformados em &#8220;tiro ao alvo&#8221; por puro divertimento dos ca\u00e7adores. Enviamos os filmes e as informa\u00e7\u00f5es a Campo Grande por meio de um motorista de \u00f4nibus interestadual e ficamos mais um dia em Miranda, acompanhando a ca\u00e7ada policial aos criminosos. A pris\u00e3o s\u00f3 ocorreu dias depois, ap\u00f3s troca de tiros: alguns ca\u00edram, outros fugiram e, salvo engano, apenas dois foram presos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O ent\u00e3o &#8220;major Rabelo&#8221;, hoje coronel da reserva \u00c2ngelo Rabelo, foi considerado her\u00f3i nesses enfrentamentos. Corajoso, ele n\u00e3o hesitava em desafiar os bandos fortemente armados de coureiros que infestavam os rios e lagoas do Pantanal. Em um desses embates, seu piloteiro foi morto e ele recebeu um tiro que atravessou o ombro, deixando como sequela uma leve atrofia em sua m\u00e3o. Nada disso, por\u00e9m, foi suficiente para afast\u00e1-lo da luta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os coureiros eram temidos nacionalmente pela viol\u00eancia e pela destrui\u00e7\u00e3o da fauna pantaneira. Al\u00e9m do tr\u00e1fico, espalhavam carnificina e desrespeito \u00e0 vida. Mas a persist\u00eancia da pol\u00edcia sul-mato-grossense, refor\u00e7ada em homens e equipamentos, acabou prevalecendo e enfraquecendo a pr\u00e1tica criminosa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quanto a mim, ainda guardo v\u00edvida a lembran\u00e7a do retorno \u00e0 minha casa, na noite do quinto dia. Ao sentir a \u00e1gua cair durante um longo e merecido banho, festejei em sil\u00eancio a sensa\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o cumprida. Mais do que higienizar o corpo, aquele banho simbolizou o al\u00edvio de ter atravessado dias de tens\u00e3o e incerteza. Foram 4 dias no mato sem cachorro, mas com o cora\u00e7\u00e3o cheio do compromisso que sempre guiou o meu of\u00edcio: contar a verdade, custe o que custar.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professorwilsonaquino2012@gmail.com Em meados dos anos 80 \u2014 julho de 1984,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":11769159,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11773255","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11773255"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773255\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11773256,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773255\/revisions\/11773256"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11769159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11773255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11773255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11773255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}