{"id":11773523,"date":"2025-09-15T12:00:00","date_gmt":"2025-09-15T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11773523"},"modified":"2025-09-15T14:19:36","modified_gmt":"2025-09-15T18:19:36","slug":"117-anos-de-imigracao-japonesa-a-ms","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/117-anos-de-imigracao-japonesa-a-ms\/","title":{"rendered":"117 anos de imigra\u00e7\u00e3o japonesa a MS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor<\/em><\/p>\n\n\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em junho deste ano, a imigra\u00e7\u00e3o japonesa a Campo Grande completou 117 anos. Os primeiros chegaram em 1909, vindos para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Desde ent\u00e3o, sua cultura passou a fazer parte da identidade da cidade, enriquecendo-a em v\u00e1rios aspectos, especialmente por meio da sua culin\u00e1ria. Hoje, com muito orgulho, temos a terceira maior comunidade japonesa do Brasil, o que revela a for\u00e7a desta presen\u00e7a no Mato Grosso do Sul e no pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Minha primeira lembran\u00e7a com essa cultura, curiosamente, n\u00e3o veio dos livros nem do conv\u00edvio com fam\u00edlias de origem japonesa. Ela nasceu no cinema. Eu tinha apenas oito anos, em meados da d\u00e9cada de 1960, quando assisti a um filme em preto e branco numa sala de exibi\u00e7\u00e3o em Corumb\u00e1, minha cidade natal. Naquele tempo, a televis\u00e3o ainda n\u00e3o havia chegado por l\u00e1, e aquela sess\u00e3o marcou para sempre o cora\u00e7\u00e3o de um menino que descobriu a beleza e a intensidade da alma oriental. O t\u00edtulo do filme? N\u00e3o tenho a menor ideia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, me lembro muito bem da trama, que narrava a hist\u00f3ria de uma princesa japonesa que vivia em um castelo rodeado de esplendor. Seu lugar favorito era o jardim real, repleto de flores, \u00e1rvores frondosas e p\u00e1ssaros que pareciam cantar para ela. De rara beleza e delicadeza, a jovem corria entre as flores perseguindo uma borboleta, at\u00e9 cair, acidentalmente, em um chafariz. Molhada e vulner\u00e1vel, torcia o vestido quando foi surpreendida por um jovem aventureiro e irreverente que invadira o jardim, por pura curiosidade. Apavorada, gritou, atraindo guardas e criados, que o prenderam ap\u00f3s uma persegui\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Mas o destino mudaria suas vidas: havia um voto de que o primeiro homem a v\u00ea-la despida seria seu marido, o homem de sua vida. Tocada por esse juramento e por um amor nascente, a princesa lutou pela vida do rapaz acusado de ser um ladr\u00e3o. Ele, por sua vez, descobriu, depois de algumas visitas dela que recebeu na pris\u00e3o, que tamb\u00e9m a amava. Assim nasceu um drama de amor imposs\u00edvel, t\u00e3o comovente quanto Romeu e Julieta, que tamb\u00e9m terminou em trag\u00e9dia, mas deixou em minha alma infantil uma marca eterna.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Hoje percebo que talvez minha sensibilidade diante do amor tenha come\u00e7ado naquela tarde distante, numa sala de cinema em Corumb\u00e1. Para muitos, foi apenas um filme; para mim, foi a semente de um encantamento pela cultura japonesa, que floresceu com o tempo e se transformou em respeito, admira\u00e7\u00e3o e afinidade pelos seus valores de sabedoria, perseveran\u00e7a, beleza e humildade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A arte japonesa tem essa for\u00e7a: contar hist\u00f3rias simples com uma delicadeza capaz de tocar o cora\u00e7\u00e3o humano em sua ess\u00eancia. Nos gestos contidos, nos cen\u00e1rios que exaltam a natureza e nos sil\u00eancios que falam mais que palavras, o cinema japon\u00eas e sua cultura em geral nos ensinam que o amor, a honra e o respeito est\u00e3o acima das circunst\u00e2ncias. \u00c9 por isso que aquela obra marcou tanto minha inf\u00e2ncia, mesmo sem eu conhecer, \u00e0 \u00e9poca, a profundidade de seus s\u00edmbolos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esse fasc\u00ednio aumentou ainda mais quando compreendi que os japoneses levaram sua disciplina e sua cultura muito al\u00e9m das ilhas do Pac\u00edfico. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, milhares de fam\u00edlias migraram para diversos pa\u00edses, entre eles o Brasil, trazendo n\u00e3o apenas sua for\u00e7a de trabalho, mas tamb\u00e9m sua tradi\u00e7\u00e3o, sua alma e sua capacidade de enriquecer os lugares que os acolheram. Campo Grande tornou-se um dos grandes p\u00f3los dessa presen\u00e7a nip\u00f4nica. Suas fam\u00edlias integraram-se \u00e0 vida local sem perder o v\u00ednculo com suas ra\u00edzes, deixando um legado de disciplina, respeito e progresso que fortalece a identidade da cidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m da culin\u00e1ria, h\u00e1 tamb\u00e9m outras marcas dessa presen\u00e7a em nossa terra. As festas t\u00edpicas, como o Bon Odori, os campeonatos de jud\u00f4 e beisebol, e a valoriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e do estudo, s\u00e3o heran\u00e7as preciosas que a comunidade japonesa trouxe consigo e compartilhou com todos. S\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es que ultrapassam os limites da tradi\u00e7\u00e3o e se transformam em valores coletivos, fortalecendo ainda mais a alma sul-mato-grossense.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Entre tantas contribui\u00e7\u00f5es, a culin\u00e1ria \u00e9 uma das mais queridas. Quem, em Campo Grande, nunca se deliciou com um sob\u00e1 bem preparado? Esse prato, de ra\u00edzes japonesas, foi incorporado de tal forma ao cotidiano da cidade que hoje \u00e9 considerado um dos s\u00edmbolos de sua pr\u00f3pria cultura. Cada receita \u00e9 uma mem\u00f3ria afetiva, um la\u00e7o de amizade entre povos que aprenderam a conviver e a se respeitar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ao recordar aquele filme visto aos oito anos, percebo que ele n\u00e3o foi apenas uma hist\u00f3ria de amor imposs\u00edvel, mas o in\u00edcio de uma jornada interior. A mesma emo\u00e7\u00e3o que senti diante da princesa e do jovem aventureiro reencontro hoje na conviv\u00eancia com nossos irm\u00e3os japoneses, que entrela\u00e7am suas vidas \u00e0s nossas. Assim como no jardim daquela princesa, onde flores e p\u00e1ssaros celebravam a vida, tamb\u00e9m em Campo Grande floresce o encontro de culturas que nos ensina a viver com mais respeito, beleza e, sobretudo, amor.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Obs.: Este Artigo \u00e9 dedicado \u00e0 minha colega de trabalho, YONE UEHARA, Gerente Comercial do Jornal Di\u00e1rio da Serra nos anos 70, \u00e0 sua fam\u00edlia e a todas as fam\u00edlias nip\u00f4nicas que\u00a0com trabalho, cultura e amor, fincaram ra\u00edzes em Campo Grande e ajudaram a florescer sua hist\u00f3ria.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor Em junho deste ano, a imigra\u00e7\u00e3o japonesa a Campo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":11770852,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11773523","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11773523"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11773524,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11773523\/revisions\/11773524"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11770852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11773523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11773523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11773523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}