{"id":11774076,"date":"2025-09-29T08:25:00","date_gmt":"2025-09-29T12:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11774076"},"modified":"2025-09-29T09:30:24","modified_gmt":"2025-09-29T13:30:24","slug":"driblando-fiscais-ambientais-na-mata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/driblando-fiscais-ambientais-na-mata\/","title":{"rendered":"Driblando fiscais ambientais na mata"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professor<\/em><br \/><em><a href=\"mailto:wilsonaquino2012@gmail.com\">wilsonaquino2012@gmail.com<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em meados dos anos 80, o Rio Cachoeir\u00e3o, que des\u00e1gua no Aquidauana, sofreu pelo menos dois grandes desastres ambientais em intervalos de pouco mais de um ano. Foram epis\u00f3dios de mortandade de milhares de peixes, que amanheceram boiando por quil\u00f4metros, chegando at\u00e9 o Aquidauana e amea\u00e7ando o Pantanal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A cena era chocante. Ribeirinhos apavorados, pecuaristas e pequenos produtores tentando impedir que suas cria\u00e7\u00f5es bebessem daquela \u00e1gua. Na primeira vez, o caso ficou no campo das teorias. Na segunda, tamb\u00e9m surgiram explica\u00e7\u00f5es inusitadas: alguns especialistas falavam em excesso de folhas em decomposi\u00e7\u00e3o no fundo do leito, que teria reduzido o oxig\u00eanio da \u00e1gua; outros, no rigor do inverno. A vers\u00e3o virou at\u00e9 piada em colunas de jornal: houve quem sugerisse distribuir casacos e cachec\u00f3is aos peixes, para que n\u00e3o morressem mais de frio. Mas a realidade n\u00e3o tinha nada de engra\u00e7ada: dourados, pintados, surubins, pi\u00e1s, corimbas e at\u00e9 ja\u00fas jaziam mortos sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Naqueles anos eu vivia o auge da carreira, iniciada no fim da d\u00e9cada de 70. Rumores apontavam para a Usina de \u00c1lcool Quebra Coco, em Sidrol\u00e2ndia. Ao lado do fot\u00f3grafo Paulo Ribas, segui para investigar, com a anu\u00eancia do nosso editor-chefe, Silvio Martins Martinez. Fomos barrados na entrada, mas n\u00e3o me dei por vencido: conversei com funcion\u00e1rios que entravam e sa\u00edam da usina, al\u00e9m de moradores do entorno, que confirmaram o que j\u00e1 se comentava \u2014 a usina teria sido a respons\u00e1vel pelos desastres. De volta ao jornal, trouxe \u00e0 tona essa suspeita, que virou manchete principal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Dois dias depois, o INAMB \u2014 Instituto de Preserva\u00e7\u00e3o e Controle Ambiental (extinto em 1978 para dar origem ao atual IMASUL) \u2014 nos convidou para acompanhar uma vistoria, da usina at\u00e9 as comunidades ribeirinhas. \u00c9ramos apenas eu e Paulo Ribas, diante de quatro fiscais e funcion\u00e1rios da usina. Sugeri visitar os tanques de vinhoto, reservat\u00f3rios do dejeto altamente t\u00f3xico gerado pelo processo de fabrica\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool. Percebi, por\u00e9m, que a presen\u00e7a de empregados na comitiva poderia comprometer a apura\u00e7\u00e3o: funcion\u00e1rios ficariam intimidados, e havia risco de sermos conduzidos a locais previamente escolhidos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foi ent\u00e3o que, ao adentrarmos uma mata fechada, senti que era a chance de me apartar do grupo. Usei a agilidade e a resist\u00eancia f\u00edsica que sempre tive, e rapidamente despistei fiscais e seguran\u00e7as, que vestiam coturnos e uniformes pesados. Segui sozinho pela mata, guiado apenas pelo instinto de rep\u00f3rter.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pouco adiante, encontrei um improvisado acampamento de trabalhadores da usina. Ganhei sua confian\u00e7a e ouvi a verdade: dois tanques de vinhoto haviam se rompido dias antes, exatamente na data da mortandade. Relataram ainda que acidentes semelhantes j\u00e1 tinham ocorrido em outras ocasi\u00f5es. Pedi que me mostrassem o caminho. Ao chegar, o cen\u00e1rio falava por si: a vegeta\u00e7\u00e3o estava queimada, morta, como se um \u00e1cido tivesse varrido a vida. N\u00e3o havia d\u00favida. A causa estava diante de mim. Descobri tamb\u00e9m tubula\u00e7\u00f5es que despejavam, de forma cont\u00ednua, uma \u00e1gua escura em um pequeno c\u00f3rrego que passava pela usina, o Belchior. Funcion\u00e1rios disseram tratar-se da \u00e1gua de lavagem da usina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Retornei \u00e0 sede da empresa apenas horas depois, reencontrando o grupo com naturalidade. Para proteger a mim e ao fot\u00f3grafo \u2014 j\u00e1 que dormir\u00edamos na usina, partindo apenas na manh\u00e3 seguinte para conversar com ribeirinhos \u2014 omiti o que havia descoberto, alegando apenas que me perdera pela mata e pelos canaviais. Durante o jantar, sob olhares desconfiados, procurei agir com naturalidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s a refei\u00e7\u00e3o, um diretor do grupo econ\u00f4mico \u2014 vindo de S\u00e3o Paulo especialmente para acompanhar a vistoria \u2014 chamou-me para uma conversa reservada. Reclamou que nossas mat\u00e9rias traziam preju\u00edzos \u00e0 imagem da usina. O tom da conversa insinuava algum tipo de &#8220;acordo&#8221;. Ao perceber a tentativa de conduzir a conversa para um poss\u00edvel suborno, cortei o rumo da prosa, ressaltando que a presen\u00e7a dos fiscais deixaria tudo muito claro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No dia seguinte, seguimos apenas com os fiscais. Ribeirinhos confirmaram mudan\u00e7as na cor e na temperatura das \u00e1guas, provavelmente pelo despejo constante de dejetos pelas tubula\u00e7\u00f5es, relatando que j\u00e1 evitavam que seus animais bebessem dali. As evid\u00eancias estavam todas diante de n\u00f3s. Percorremos as margens do C\u00f3rrego Belchior, at\u00e9 formar o C\u00f3rrego Canastr\u00e3o, que recebia volume de outras paragens at\u00e9 desaguar no Rio Cachoeir\u00e3o, onde o maior n\u00famero de peixes apareceu morto. Todos os depoimentos apontavam para a usina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De volta \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio da Serra, publicamos a den\u00fancia em manchetes de impacto: a Usina Quebra Coco era a respons\u00e1vel pelos desastres ambientais, conforme os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios. Foram tr\u00eas ou quatro dias seguidos de destaque, alertando para o perigo do vinhoto e para a neglig\u00eancia com nossos rios.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O desfecho, por\u00e9m, foi o mais previs\u00edvel \u2014 e o mais lament\u00e1vel. O INAMB se limitou ao burocr\u00e1tico &#8220;estamos investigando&#8221;. A usina, por sua vez, respondeu com publicidade paga em jornais semanais, de p\u00e1ginas inteiras, tentando desqualificar nosso trabalho e posar de empresa cuidadosa e geradora de empregos. Nenhuma puni\u00e7\u00e3o exemplar. Nenhuma repara\u00e7\u00e3o. Nenhuma justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para mim, restou a consci\u00eancia limpa. Cumpri o dever de jornalista: busquei a verdade, enfrentei obst\u00e1culos, resisti a press\u00f5es e n\u00e3o me deixei seduzir pelo poder econ\u00f4mico. Mas ficou tamb\u00e9m o gosto amargo da impunidade. Um retrato de um Brasil em que a for\u00e7a do dinheiro e do poder pol\u00edtico, quase sempre, fala mais alto do que a defesa do meio ambiente e da vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilson Aquino &#8211; Jornalista e Professorwilsonaquino2012@gmail.com Em meados dos anos 80, o Rio Cachoeir\u00e3o, que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":11770852,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-11774076","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11774076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11774076"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11774076\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11774077,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11774076\/revisions\/11774077"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11770852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11774076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11774076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11774076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}