{"id":11784486,"date":"2026-07-30T11:52:00","date_gmt":"2026-07-30T15:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=11784486"},"modified":"2026-07-30T12:18:22","modified_gmt":"2026-07-30T16:18:22","slug":"misoginia-nao-pode-calar-a-liberdade-de-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/misoginia-nao-pode-calar-a-liberdade-de-imprensa\/","title":{"rendered":"Misoginia n\u00e3o pode calar a liberdade de imprensa"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio deixa de ser prud\u00eancia para se transformar em coniv\u00eancia. A viol\u00eancia verbal dirigida contra mulheres jornalistas ultrapassou, e h\u00e1 muito tempo, o limite da cr\u00edtica pol\u00edtica. Se tornou estrat\u00e9gia de intimida\u00e7\u00e3o, de desumaniza\u00e7\u00e3o e de ataque \u00e0 pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas ao influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo Filho, neto do ditador Jo\u00e3o Figueiredo, \u00faltimo general que governou o Brasil no per\u00edodo ap\u00f3s o golpe militar, feitas contra jornalistas da GloboNews e contra Miriam Leit\u00e3o, repercutidas nas redes sociais, recolocam esse problema em evid\u00eancia. As ofensas n\u00e3o representam apenas mais um destempero verbal. Revelam a persist\u00eancia de uma cultura pol\u00edtica que transforma mulheres em alvo preferencial de \u00f3dio sempre que elas exercem o direito, e o dever, de informar.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 cr\u00edtica jornal\u00edstica nas express\u00f5es &#8220;putas&#8221; ou &#8220;prostitutas&#8221;. H\u00e1 misoginia. N\u00e3o existe debate de ideias quando a mulher \u00e9 reduzida a insultos de natureza sexual. O objetivo \u00e9 evidente: desqualificar profissionais n\u00e3o pelo conte\u00fado de seu trabalho, mas por seu g\u00eanero.<\/p>\n<p>Isso vale tamb\u00e9m para a refer\u00eancia de que algu\u00e9m &#8220;n\u00e3o merece ser estuprada&#8221;. A sociedade brasileira j\u00e1 enfrentou esse mesmo debate. Em 2014, Jair Bolsonaro dirigiu frase semelhante \u00e0 ent\u00e3o deputada Maria do Ros\u00e1rio. O epis\u00f3dio terminou nos tribunais, e o Superior Tribunal de Justi\u00e7a deixou claro que esse tipo de declara\u00e7\u00e3o banaliza a viol\u00eancia sexual ao sugerir que o estupro poderia ser um &#8220;merecimento&#8221; ou uma escolha do agressor. N\u00e3o se trata de figura de linguagem. Trata-se de uma invers\u00e3o moral que agride todas as mulheres, todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a repeti\u00e7\u00e3o dessa constru\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica n\u00e3o pode ser recebida com naturalidade. Ela carrega um significado hist\u00f3rico, jur\u00eddico e simb\u00f3lico que extrapola a ofensa individual.<\/p>\n<p>O alvo, desta vez, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa. Miriam Leit\u00e3o \u00e9 uma jornalista cuja trajet\u00f3ria est\u00e1 profundamente ligada \u00e0 hist\u00f3ria da democracia brasileira. Ainda muito jovem e gr\u00e1vida, foi presa, torturada e submetida a graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos durante a ditadura militar. Sua hist\u00f3ria \u00e9 conhecida, documentada e representa a mem\u00f3ria de um per\u00edodo em que o Estado perseguiu cidad\u00e3os por suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Atacar Miriam Leit\u00e3o com refer\u00eancias que evocam viol\u00eancia contra mulheres significa atingir n\u00e3o apenas uma profissional respeitada, mas tamb\u00e9m a mem\u00f3ria das v\u00edtimas da repress\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 imposs\u00edvel ignorar esse contexto.<\/p>\n<p>O mais preocupante, contudo, \u00e9 perceber que epis\u00f3dios como esse deixaram de ser exce\u00e7\u00e3o. H\u00e1 anos, mulheres jornalistas se tornaram alvo preferencial de campanhas de \u00f3dio nas redes sociais. N\u00e3o importa o ve\u00edculo em que trabalham, sua linha editorial ou suas opini\u00f5es pessoais. Basta que publiquem informa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis a determinados grupos pol\u00edticos para que passem a ser insultadas, amea\u00e7adas ou submetidas a campanhas claramente coordenadas de difama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia. \u00c9 m\u00e9todo.<\/p>\n<p>Quando a imprensa \u00e9 intimidada, toda a sociedade perde. O jornalista n\u00e3o trabalha apenas para um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o. Trabalha para a sociedade, que depende de informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel para formar suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es. Enfraquecer a credibilidade da imprensa por meio da viol\u00eancia verbal interessa apenas \u00e0queles que preferem substituir fatos por vers\u00f5es deles, propaganda e investiga\u00e7\u00e3o por intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode aceitar que figuras p\u00fablicas utilizem sua enorme capacidade de alcance para estimular discursos que normalizam a viol\u00eancia simb\u00f3lica. Palavras produzem consequ\u00eancias. Elas alimentam ambientes de hostilidade, incentivam seguidores mais radicalizados e tornam ainda mais dif\u00edcil o exerc\u00edcio do jornalismo, em especial por mulheres.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que entram as institui\u00e7\u00f5es. Havendo ind\u00edcios de il\u00edcitos, cabe ao Minist\u00e9rio P\u00fablico investigar, ao Judici\u00e1rio julgar e assegurar o devido processo legal. Responsabiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 censura. \u00c9 aplica\u00e7\u00e3o da lei. Liberdade de express\u00e3o exige responsabilidade de express\u00e3o, digo isso h\u00e1 anos. Direito \u00e0 opini\u00e3o jamais significou licen\u00e7a para ofender, humilhar ou incitar pr\u00e1ticas discriminat\u00f3rias.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s queremos? Um ambiente em que diverg\u00eancias sejam enfrentadas com argumentos, dados e evid\u00eancias ou uma arena dominada pelo insulto, pela misoginia e pela degrada\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio. Combater a misoginia n\u00e3o \u00e9 proteger um grupo espec\u00edfico. \u00c9 afirmar um princ\u00edpio civilizat\u00f3rio: nenhuma mulher deve ser humilhada, intimidada ou reduzida a estere\u00f3tipos sexistas por exercer sua profiss\u00e3o ou manifestar suas opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Epis\u00f3dios dessa natureza n\u00e3o podem ser tratados como simples pol\u00eamicas das redes sociais. Eles exigem rep\u00fadio p\u00fablico, investiga\u00e7\u00e3o quando cab\u00edvel e, sobretudo, uma reafirma\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de que liberdade de imprensa, respeito \u00e0s mulheres e responsabilidade pelas palavras s\u00e3o pilares insepar\u00e1veis de qualquer democracia digna desse nome. \u00c9 preciso pulso firme contra esse tipo de absurdo, denunciar, investigar, julgar e punir com a lei. Passar o pano \u00e9 motivar o crescimento da falta de respeito, institucionalizar a pr\u00e1tica do \u00f3dio.<\/p>\n<p><em>Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura (UPM); membro da Comiss\u00e3o de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de\u00a0A vila que descobriu o Brasil,\u00a0Mem\u00f3rias de um tempo obscuro\u00a0e\u00a0O sol brilhou \u00e0 noite.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos em que o sil\u00eancio deixa de ser prud\u00eancia para se transformar em coniv\u00eancia. A viol\u00eancia verbal dirigida contra mulheres jornalistas ultrapassou, e h\u00e1 muito tempo, o limite da cr\u00edtica pol\u00edtica. Se tornou estrat\u00e9gia de intimida\u00e7\u00e3o, de desumaniza\u00e7\u00e3o e de ataque \u00e0 pr\u00f3pria democracia. 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