{"id":27852,"date":"2019-02-04T14:47:11","date_gmt":"2019-02-04T17:47:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=27852"},"modified":"2019-02-04T14:30:27","modified_gmt":"2019-02-04T17:30:27","slug":"a-vale-prefere-investir-nos-melhores-advogados-a-pagar-a-conta-do-desastre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/a-vale-prefere-investir-nos-melhores-advogados-a-pagar-a-conta-do-desastre\/","title":{"rendered":"\u201cA Vale prefere investir nos melhores advogados a pagar a conta do desastre\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Professor da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em geografia na Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei (UFSJ), o ecologista Ricardo Motta Pinto Coelho reuniu alunos de sua turma assim que soube do rompimento da barragem da Vale e se deslocou a Brumadinho para acompanhar de perto as repercuss\u00f5es do desastre. Diante dos trabalhos de resgate e as tentativas de conten\u00e7\u00e3o dos rejeitos, os estudantes presenciaram, da pior maneira poss\u00edvel, os ensinamentos do professor sobre os impactos da minera\u00e7\u00e3o no meio ambiente. \u201cA matriz econ\u00f4mica do Brasil levou nossos ecossistemas ao limite\u201d, afirma Pinto Coelho.<\/p>\n<p>Ao longo de dois anos, ele monitorou os desdobramentos da trag\u00e9dia de Mariana e concluiu que a impunidade joga a favor das mineradoras envolvidas em crimes socioambientais. Al\u00e9m de cobrar puni\u00e7\u00e3o \u00e0 Vale, o ecologista tamb\u00e9m reivindica maior fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre a atividade minerat\u00f3ria e pol\u00edticas de incentivo \u00e0 economia verde.<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong> Ap\u00f3s mais um rompimento de barragem em Minas Gerais, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o caso de Mariana n\u00e3o deixou li\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong> A solu\u00e7\u00e3o do desastre em Mariana foi incompleta. Ainda h\u00e1 praticamente tudo por fazer. N\u00e3o se resolve uma trag\u00e9dia desse porte apenas distribuindo bolsa com sal\u00e1rio m\u00ednimo para as pessoas afetadas. A maioria dos desabrigados n\u00e3o foi ressarcida. E o rio Doce continua polu\u00eddo. \u00c9 muito cedo para falar sobre as causas do acidente de Brumandinho. Mas, nas poucas horas em que passei \u00e0s margens do rio Paraopeba, o que eu mais ouvi foi a palavra \u201cimpunidade\u201d. A popula\u00e7\u00e3o tem certeza de que os respons\u00e1veis pela trag\u00e9dia ficar\u00e3o impunes.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> O que difere o rompimento de Brumadinho da trag\u00e9dia de Mariana?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Os rejeitos representam pouco menos da metade da quantidade de lama que foi liberada na barragem de Fund\u00e3o. Mas o drama humano em Brumadinho \u00e9 muito maior. Eu vi muitas pessoas sem informa\u00e7\u00f5es sobre familiares desaparecidos. Presenciei a afli\u00e7\u00e3o das equipes de resgate tirando vacas e animais do brejo. Outro fato que diferencia esse desastre do de Mariana \u00e9 que o rio Paraopeba est\u00e1 muito pr\u00f3ximo da barragem. Em Bento Rodrigues, o rio Doce estava a quase 100 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Por que mineradoras de faturamento bilion\u00e1rio como a Vale ainda s\u00e3o vulner\u00e1veis a rompimentos de barragem?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> O balan\u00e7o da Vale [a empresa registrou lucro l\u00edquido de 18 bilh\u00f5es de reais em 2017] \u00e9 um agravante. Embora n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado o patamar de outros anos, o pre\u00e7o do min\u00e9rio de ferro voltou a subir. No af\u00e3 de alcan\u00e7ar lucros ainda maiores, em fun\u00e7\u00e3o da retomada das exporta\u00e7\u00f5es, a empresa negligencia quest\u00f5es de seguran\u00e7a. Acidentes como o de Brumadinho acontecem devido a uma somat\u00f3ria de pequenos erros. Uma companhia como a Vale, dominante no mercado em Minas Gerais, precisa ser mais transparente no aspecto ambiental, que n\u00e3o segue o mesmo rigor de seus mecanismos de controle financeiro. Laudos e relat\u00f3rios firmados pela empresa s\u00e3o uma caixa-preta. O poderio econ\u00f4mico da Vale rompe resist\u00eancias a seus interesses em todas as esferas de governo, do municipal ao federal. Por causa do oligop\u00f3lio, os prefeitos de cidades mineradoras ficam de m\u00e3os e p\u00e9s atados \u00e0 depend\u00eancia da empresa [60% da receita anual de Brumadinho prov\u00eam dos royalties da minera\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Como os Estados podem se tornar menos dependes da minera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> \u00c9 preciso diversificar a matriz econ\u00f4mica. Mudar o paradigma da pol\u00edtica macro. A ind\u00fastria brasileira est\u00e1 sucateada. Por sua vez, as cadeias produtivas de <em>commodities<\/em> dependem de uso excessivo da \u00e1gua. O Brasil, na verdade, \u00e9 o maior exportador de \u00e1gua do mundo. E faz isso por meio da pecu\u00e1ria, da celulose e do min\u00e9rio, que gastam centenas de toneladas de \u00e1gua em sua produ\u00e7\u00e3o. Nossas reservas s\u00e3o mais escassas do que os governos alardeiam. Basta observar o d\u00e9ficit h\u00eddrico em praticamente todas as regi\u00f5es metropolitanas do pa\u00eds. Estamos muito atrasados na gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos. Do que adianta sediar o F\u00f3rum Mundial das \u00c1guas se n\u00e3o conseguimos cuidar dos nossos rios? N\u00e3o passa de quermesse ecol\u00f3gica, que serve de palanque para pol\u00edticos. H\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas eu ando pelas estradas fazendo pesquisas. Nossos rios est\u00e3o depressionados. As lagoas urbanas, severamente polu\u00eddas. E os gestores p\u00fablicos se mostram incapazes de reverter esse quadro. Os governantes precisam ter uma postura mais proativa em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente. Menos F\u00f3rum Mundial e mais a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> As iniciativas de preserva\u00e7\u00e3o pelo pa\u00eds est\u00e3o em xeque no Governo de Jair Bolsonaro, que j\u00e1 manifestou a inten\u00e7\u00e3o de flexibilizar a legisla\u00e7\u00e3o ambiental?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Todos os governos, sem exce\u00e7\u00e3o, apertaram o acelerador da \u201ceconomia marrom\u201d, que gira em torno do petr\u00f3leo, cimento, min\u00e9rio e agroneg\u00f3cio. Al\u00e9m da reorienta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, precisamos mudar tamb\u00e9m a matriz energ\u00e9tica. A usina de Belo Monte, com aqueles mamutes l\u00e1 no meio da Amaz\u00f4nia, \u00e9 um crime ambiental que poderia ter sido evitado por uma pol\u00edtica mais respons\u00e1vel de gest\u00e3o dos recursos ambientais. A sociedade brasileira n\u00e3o respeita o meio ambiente, que nunca esteve entre as prioridades de nenhum governo. Os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, s\u00e3o absolutamente despreparados, sem qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para lidar com os tr\u00e2mites exigidos pela \u00e1rea. Os ecossistemas est\u00e3o no limite. Chegou a hora de barrar a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e da minera\u00e7\u00e3o no Brasil para estimular a economia verde. Enquanto o meio ambiente n\u00e3o se tornar prioridade, os desastres ser\u00e3o cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Na tentativa de se esquivarem de multas e puni\u00e7\u00f5es rigorosas, empresas respons\u00e1veis por desastres ambientais geralmente usam o argumento de que se deve preservar suas atividades para n\u00e3o gerar desemprego&#8230;<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Acontecia a mesma coisa com os movimentos de aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Os opositores diziam que a escravid\u00e3o era essencial para a economia. A alega\u00e7\u00e3o de que mineradoras n\u00e3o podem ser punidas por prote\u00e7\u00e3o a empregos n\u00e3o passa de desculpa para jogar sujeira debaixo do tapete.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Uma queixa antiga de empreendedores \u00e9 a burocracia para se obter licen\u00e7as ambientais. Acelerar esse processo n\u00e3o implicaria em riscos ainda maiores ao meio ambiente?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> Retardar a concess\u00e3o de licen\u00e7as n\u00e3o \u00e9 uma boa pol\u00edtica. Tivemos um exemplo disso em Minas Gerais. Para reduzir os impactos da pecu\u00e1ria no meio ambiente, o Minist\u00e9rio da Pesca incentivou a cria\u00e7\u00e3o de peixes, que tamb\u00e9m impacta a natureza, mas de forma menos agressiva que o agroneg\u00f3cio. O pa\u00eds quintuplicou a produ\u00e7\u00e3o do pescado, mas Minas ficou para tr\u00e1s porque travava as licen\u00e7as ambientais. O ideal \u00e9 avaliar e conceder licen\u00e7as no menor prazo poss\u00edvel. Mas, para que funcione bem, fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. O que acontece na minera\u00e7\u00e3o \u00e9 que entregaram a chave do galinheiro para a raposa. Quem faz o monitoramento ambiental s\u00e3o as empresas. Isso tem de mudar. O Governo precisa fiscalizar e realizar auditorias nas mineradoras, o que demanda, necessariamente, investimentos em meio ambiente para qualificar as equipes dos \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong> Voc\u00ea falou sobre a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade. Teme que o caso da Vale tenha desfechos semelhantes ao de Mariana?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong> O rompimento da barragem em Brumadinho foi crime. Mas n\u00e3o culpo o atual governador [Romeu Zema] nem o antecessor [Fernando Pimentel]. Aconteceu no Governo dele, mas aconteceria em qualquer outro governo, porque n\u00e3o h\u00e1, no Brasil, pol\u00edticas p\u00fablicas que tratem a quest\u00e3o ambiental com a devida seriedade. Assim como em Mariana, onde at\u00e9 hoje o distrito de Bento Rodrigues n\u00e3o foi reconstru\u00eddo, o embate para responsabilizar a empresa ser\u00e1 pesado. A Vale prefere investir nos melhores advogados do mundo a pagar a conta do desastre. E o Estado n\u00e3o est\u00e1 preparado para essa batalha. Se estivesse, n\u00e3o teria acontecido outra cat\u00e1strofe em t\u00e3o pouco tempo. Ainda estamos na idade da pedra quando o assunto \u00e9 meio ambiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em geografia na Universidade Federal de S\u00e3o Jo\u00e3o del-Rei (UFSJ), o ecologista&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-27852","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27852","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27852"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27852\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27854,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27852\/revisions\/27854"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27852"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27852"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27852"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}