{"id":2956,"date":"2017-04-11T09:05:24","date_gmt":"2017-04-11T13:05:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=2956"},"modified":"2017-04-11T07:36:37","modified_gmt":"2017-04-11T11:36:37","slug":"pesquisa-com-veneno-de-aranha-pode-gerar-remedio-para-disfuncao-eretil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/pesquisa-com-veneno-de-aranha-pode-gerar-remedio-para-disfuncao-eretil\/","title":{"rendered":"Pesquisa com veneno de aranha pode gerar rem\u00e9dio para disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til"},"content":{"rendered":"<p>A picada da aranha armadeira pode provocar, nos homens, o priapismo. Trata-se de uma ere\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria e dolorosa que, se n\u00e3o for tratada, pode levar \u00e0 necrose do p\u00eanis em alguns casos. No laborat\u00f3rio, por\u00e9m, cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Funda\u00e7\u00e3o Ezequiel Dias (Funed) mostraram que o veneno desse aracn\u00eddeo pode ser manipulado em favor da sa\u00fade e levar a um novo medicamento para disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til, com algumas vantagens em rela\u00e7\u00e3o aos j\u00e1 existentes no mercado. A biotecnologia desenvolvida j\u00e1 foi licenciada pela empresa Biozeus, que dar\u00e1 sequ\u00eancia ao projeto.<\/p>\n<p>De origem sul-americana, a aranha armadeira \u00e9 bem distribu\u00edda no sudeste brasileiro, tanto em \u00e1reas rurais como em \u00e1reas urbanas. Conhecida cientificamente como Phoneutria nigriventer, ela \u00e9 tamb\u00e9m chamada popularmente de aranha-de-bananeira por ser constantemente encontrada em cachos de bananas. Seu veneno \u00e9 extremamente potente e pode provocar a morte de pequenos mam\u00edferos. A picada em humanos n\u00e3o \u00e9 incomum.<\/p>\n<p>Segundo dados preliminares do Minist\u00e9rio de Sa\u00fade, o pa\u00eds registrou no ano passado 171.576 acidentes com animais pe\u00e7onhentos. A maioria dos casos est\u00e3o relacionados com escorpi\u00f5es. Foram 90.026 registros. Os epis\u00f3dios com aranhas v\u00eam em segundo lugar e envolvem 28.799 notifica\u00e7\u00f5es, das quais 14% se relacionavam com a aranha armadeira. A maioria dos acidentes ocorre quando a esp\u00e9cie se esconde entre entulhos ou busca abrigo nas resid\u00eancias, misturando-se \u00e0s roupas e aos sapatos.<\/p>\n<p>A pesquisa da UFMG e da Funed teve in\u00edcio h\u00e1 mais de dez anos, quando a mol\u00e9cula respons\u00e1vel pelo priapismo \u2013 a toxina PnTx(2-6) \u2013 foi isolada do restante das subst\u00e2ncias do veneno. Os primeiros estudos buscaram mostrar o processo pelo qual essa mol\u00e9cula levava \u00e0 ere\u00e7\u00e3o. A toxina mostrou atividade nos canais para s\u00f3dio, que s\u00e3o altamente distribu\u00eddos pelo organismo e presentes, por exemplo, no sistema nervoso e nos m\u00fasculos do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s come\u00e7amos a estudar qual a parte da toxina atuava nesses canais, para que pud\u00e9ssemos remov\u00ea-la. Ao final, dos 48 res\u00edduos de amino\u00e1cido que comp\u00f5em a toxina, n\u00f3s selecionamos um grupo de 19 amino\u00e1cidos e eliminamos o resto. E a partir desse estudo, pudemos sintetizar o pept\u00eddeo PnPP 19. A\u00ed, j\u00e1 n\u00e3o era mais a mol\u00e9cula do veneno. Era outra mol\u00e9cula produzida em laborat\u00f3rio\u201d, explica a pesquisadora Maria Elena de Lima Perez Garcia, do departamento de qu\u00edmica e neurologia da UFMG.<\/p>\n<p>O pept\u00eddeo PnPP 19 foi testado em ratos, onde foi verificada a ere\u00e7\u00e3o sem os efeitos indesejados. \u201cPara nossa surpresa, ele n\u00e3o mostrou toxicidade nenhuma nos animais. E tamb\u00e9m n\u00e3o foi imunog\u00eanico, isto \u00e9, o organismo n\u00e3o produziu anticorpos contra a subst\u00e2ncia. Observamos que n\u00e3o houve nenhuma outra altera\u00e7\u00e3o no tecido do p\u00eanis al\u00e9m da ere\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m n\u00e3o houve a\u00e7\u00e3o nos canais para s\u00f3dio no restante do organismo\u201d, relata Maria Elena.<\/p>\n<p>Medicamentos<\/p>\n<p>Os testes com a nova mol\u00e9cula v\u00eam sendo conduzidos pela pesquisadora Carolina Nunes Silva, que desenvolve seu doutorado em cima da pesquisa. Ela acredita que um medicamento com base no pept\u00eddeo, por ter um mecanismo diferente, poderia atender pacientes com contraindica\u00e7\u00e3o aos que hoje est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o, como o Viagra ou o Cialis.<\/p>\n<p>\u201cO grande problema do Viagra \u00e9 que ele n\u00e3o pode ser usado por pessoas que tem problemas cardiovasculares. E, pelo que vimos, um medicamento a partir do pept\u00eddeo n\u00e3o teria esse problema. N\u00f3s fizemos testes isolados nos cora\u00e7\u00f5es dos ratos e tamb\u00e9m em canais pra s\u00f3dio expressos exclusivamente no mioc\u00e1rdio e n\u00e3o foi observada nenhuma a\u00e7\u00e3o\u201d, diz a pesquisadora. Ela avalia ainda que \u00e9 poss\u00edvel imaginar medicamentos que combinem as duas drogas. \u201cO efeito aditivo pode atender a pacientes que n\u00e3o sejam t\u00e3o responsivos ao Viagra\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Resultados mais recentes mostraram que o pept\u00eddeo estimulou a ere\u00e7\u00e3o em ratos com diabetes ou hipertens\u00e3o, enfermidades que podem provocar a disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til. A mol\u00e9cula tamb\u00e9m n\u00e3o provocou altera\u00e7\u00e3o na press\u00e3o arterial dos roedores. Essa \u00e9 uma boa not\u00edcia para muitas pessoas diab\u00e9ticas e hipertensas com contraindica\u00e7\u00e3o ao Viagra ou ao Cialis, pois s\u00e3o medicamentos que podem amplificar a vasodilata\u00e7\u00e3o e levar a quedas acentuadas e perigosas da press\u00e3o arterial.<\/p>\n<p>Um medicamento a partir do pept\u00eddeo PnPP 19 possivelmente n\u00e3o geraria esse efeito indesejado. \u201cOs avan\u00e7os da pesquisa nos animam. Quando come\u00e7amos os estudos, era mais pela curiosidade em entender a farmacologia do veneno. Pela toxicidade da subst\u00e2ncia, n\u00e3o imaginava que \u00edamos chegar a um medicamento e hoje estamos caminhando nessa dire\u00e7\u00e3o. Confesso que foi praticamente um golpe de sorte, porque quando passamos a trabalhar com os 19 amino\u00e1cidos, a mol\u00e9cula deixou de ser t\u00f3xica e, ao mesmo tempo, continuou ativando a ere\u00e7\u00e3o sem nenhum efeito secund\u00e1rio. Tem uma dose de conhecimento, mas tamb\u00e9m uma dose de sorte\u201d, diz Maria Elena.<\/p>\n<p>Patente<\/p>\n<p>A UFMG det\u00e9m a patente da biotecnologia que desenvolveu o pept\u00eddeo PnPP 19. Em dezembro de 2016, foi feita a transfer\u00eancia de tecnologia para a Biozeus, que passou a ter os direitos de explora\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula. A empresa, que existe desde 2012, promove a articula\u00e7\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e as ind\u00fastrias farmac\u00eauticas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s mapeamos estudos com potencial para gerar f\u00e1rmacos que atendam a uma necessidade m\u00e9dica global. E fazemos os ensaios que podem comprovar a viabilidade do produto. A ind\u00fastria hoje busca minimizar riscos. Ent\u00e3o, ela evita realizar as primeiras fases dos testes, que envolvem uma aposta financeira alta. Atualmente, ela prefere licenciar projetos mais desenvolvidos. A\u00ed, entra a nossa empresa&#8221;, explica Perla Borges, analista de projetos da Biozeus.<\/p>\n<p>Alguns testes mais complexos e mais caros est\u00e3o sendo realizados no exterior. Se as etapas ocorrerem dentro do esperado, o produto pode chegar ao mercado em 2023. Os ensaios pr\u00e9-cl\u00ednicos com animais levariam mais dois anos. Os testes cl\u00ednicos com humanos demandariam aproximadamente quatro anos, parte deles desenvolvidos pela Biozeus e outra pela ind\u00fastria que vier a se interessar pelo rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>A Biozeus est\u00e1 estudando a melhor formula\u00e7\u00e3o. Uma das possibilidades \u00e9 o desenvolvimento de um medicamento para aplica\u00e7\u00e3o t\u00f3pica, como pomada, gel, creme ou adesivo. Testes preliminares na UFMG mostraram que a aplica\u00e7\u00e3o do pept\u00eddeo na pele dos ratos provocou ere\u00e7\u00e3o. Um rem\u00e9dio com essas caracter\u00edsticas, al\u00e9m de reduzir bastante os riscos de efeitos adversos, pode obter uma tramita\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida nos \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A picada da aranha armadeira pode provocar, nos homens, o priapismo. 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