{"id":32706,"date":"2019-07-05T11:28:17","date_gmt":"2019-07-05T15:28:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=32706"},"modified":"2019-07-05T11:57:23","modified_gmt":"2019-07-05T15:57:23","slug":"novos-dialogos-revelam-que-moro-orientava-ilegalmente-acoes-da-lava-jato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/novos-dialogos-revelam-que-moro-orientava-ilegalmente-acoes-da-lava-jato\/","title":{"rendered":"Novos di\u00e1logos revelam que Moro orientava ilegalmente a\u00e7\u00f5es da Lava Jato"},"content":{"rendered":"<p>As manifesta\u00e7\u00f5es do \u00faltimo dia 30 tiveram como principal objetivo a defesa de Sergio Moro. Em Bras\u00edlia, um enorme boneco de Super-Homem com o seu rosto foi inflado na frente do Congresso. S\u00edmbolo da Lava-Jato, que representa um marco na hist\u00f3ria da luta anticorrup\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, o ex-juiz vem sofrendo s\u00e9rios arranh\u00f5es na imagem desde que os di\u00e1logos entre ele e membros da for\u00e7a-tarefa vieram a p\u00fablico revelando bastidores da opera\u00e7\u00e3o. As conversas ocorridas no ambiente de um sistema de comunica\u00e7\u00e3o privada (o Telegram) e divulgadas pelo site The Intercept Brasil mostraram que, no papel de magistrado, Moro deixou de lado a imparcialidade e atuou ao lado da acusa\u00e7\u00e3o. As revela\u00e7\u00f5es enfraqueceram a imagem de corre\u00e7\u00e3o absoluta do atual ministro de Jair Bolsonaro e podem at\u00e9 anular senten\u00e7as.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma pequena parte do material havia sido divulgada at\u00e9 agora \u2014 e ela foi suficiente para causar uma enorme pol\u00eamica. Em parceria com o site, VEJA realizou o mais completo mergulho j\u00e1 feito nesse conte\u00fado. Foram analisadas pela reportagem 649\u2009551 mensagens. Palavra por palavra, as comunica\u00e7\u00f5es examinadas pela equipe s\u00e3o verdadeiras e a apura\u00e7\u00e3o mostra que o caso \u00e9 ainda mais grave. Moro cometeu, sim, irregularidades. Fora dos autos (e dentro do Telegram), o atual ministro pediu \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o que inclu\u00edsse provas nos processos que chegariam depois \u00e0s suas m\u00e3os, mandou acelerar ou retardar opera\u00e7\u00f5es e fez press\u00e3o para que determinadas dela\u00e7\u00f5es n\u00e3o andassem. Al\u00e9m disso, revelam os di\u00e1logos, comportou-se como chefe do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, posi\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel com a neutralidade exigida de um magistrado. Na privacidade dos chats, Moro revisou pe\u00e7as dos procuradores e at\u00e9 dava bronca neles. \u201cO juiz deve aplicar a lei porque na terra quem manda \u00e9 a lei. A justi\u00e7a s\u00f3 existe no c\u00e9u\u201d, diz Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, falando em tese sobre o papel de um magistrado. \u201cQuando o juiz perde a imparcialidade, deixa de ser juiz.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o seria um esc\u00e2ndalo se um magistrado atuasse nas sombras alertando um advogado de que uma prova importante para a defesa de seu cliente havia ficado de fora dos autos? Pois isso aconteceu na Lava-Jato, s\u00f3 que em favor da acusa\u00e7\u00e3o. Uma conversa de 28 de abril de 2016 mostra que Moro orientou os procuradores a tornar mais robusta uma pe\u00e7a. No di\u00e1logo, Deltan Dalla\u00adgnol, chefe da for\u00e7a-tarefa em Curitiba, avisa \u00e0 procuradora Laura Tessler que Moro o havia alertado sobre a falta de uma informa\u00e7\u00e3o na den\u00fancia de um r\u00e9u \u2014 Zwi Skornicki, representante da Keppel Fels, estaleiro que tinha contratos com a Petrobras para a constru\u00e7\u00e3o de plataformas de petr\u00f3leo, e um dos principais operadores de propina no esquema de corrup\u00e7\u00e3o da Petrobras. Skornicki tornou-se delator na Lava-\u00adJato e confessou que pagou propinas a v\u00e1rios funcion\u00e1rios da estatal, entre eles Eduardo Musa, mencionado por Dalla\u00adgnol na conversa. \u201cLaura no caso do Zwi, Moro disse que tem um dep\u00f3sito em favor do Musa e se for por lapso que n\u00e3o foi inclu\u00eddo ele disse que vai receber amanh\u00e3 e da tempo. S\u00f3 \u00e9 bom avisar ele\u201d, diz. (VEJA manteve os di\u00e1logos originais com eventuais erros de digita\u00e7\u00e3o e ortografia.) \u201cIh, vou ver\u201d, responde a procuradora. No dia seguinte, o MPF incluiu um comprovante de dep\u00f3sito de 80\u2009000 d\u00f3lares feito por Skornicki a Musa. Moro aceita a den\u00fancia minutos depois do aditamento e, na sua decis\u00e3o, menciona o documento que havia pedido. Ou seja: ele claramente ajudou um dos lados do processo a fortalecer sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua defesa ap\u00f3s o estouro do esc\u00e2ndalo das mensagens, o ministro vem repetindo que atendia tanto os encarregados da acusa\u00e7\u00e3o quanto os da defesa no dia a dia e tinha conversas com eles, nenhuma delas impr\u00f3pria, na sua vis\u00e3o. De fato, est\u00e1 na rotina de um juiz receber as partes envolvidas no processo, mas de maneira oficial, sempre com registro, e n\u00e3o por meio de um sistema privado de comunica\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o do ex-juiz fica ainda mais dif\u00edcil de defender diante dos dados analisados pela parceria VEJA\/The Intercept. N\u00e3o eram conversas protocolares entre juiz e Minist\u00e9rio P\u00fablico. Do conjunto, o que se depreende, al\u00e9m de uma intimidade excessiva entre a magistratura e a acusa\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma evidente parceria na defesa de uma causa. Os exemplos mais robustos v\u00eam das conversas entre Moro e Dalla\u00adgnol. Em 2 de fevereiro de 2016, por exemplo, o juiz escreve a ele: \u201cA odebrecht peticionou com aquela questao. Vou abrir prazo de tres dias para vcs se manifestarem\u201d. Dalla\u00adgnol agradece o aviso. Moro se refere ao questionamento da Odebrecht \u00e0 Justi\u00e7a da Su\u00ed\u00e7a a respeito do compartilhamento de dados, incluindo extratos banc\u00e1rios, da empresa naquele pa\u00eds. Grosso modo, a empreiteira tentou impedir que o Minist\u00e9rio P\u00fablico su\u00ed\u00e7o enviasse dados \u00e0 for\u00e7a-tarefa. Preocupado com a hist\u00f3ria, Moro pede not\u00edcias a Dalla\u00adgnol no dia 3. \u201cQuando sera a manifesta\u00e7\u00e3o do mpf?\u201d, pergunta. \u201cEstou redigindo, mas quero fazer bem feita, para j\u00e1 subsidiar os HCs que vir\u00e3o. Imagino que amanh\u00e3, no fim da tarde\u201d, responde o procurador. No dia seguinte, Dalla\u00adgnol informa a Moro que a pe\u00e7a estava quase pronta, mas dependia ainda da revis\u00e3o de colegas. \u201cProtocolamos amanha, salvo se for importante que seja hoje. Posso mandar, se preferir, vers\u00e3o atual por aqui, para facilitar preparo de decis\u00e3o\u201d, escreve. Moro tranquiliza Dalla\u00adgnol: \u201cPode ser amanha\u201d. No dia 5, prazo final, por volta das 15 horas, Dalla\u00adgnol manda pelo Telegram ao juiz a pe\u00e7a \u201cquase pronta\u201d. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente irregular. Em vez de se comunicarem de forma transparente pelos autos, juiz e procurador usam o Telegram. Como se n\u00e3o bastasse, o chefe da for\u00e7a-\u00adtarefa ainda envia a Moro uma vers\u00e3o inacabada do trabalho para que o juiz possa adiantar a senten\u00e7a.<\/p>\n<p>Dentro da rela\u00e7\u00e3o estabelecida pela dupla, chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o momento em que Dalla\u00adgnol d\u00e1 dicas ao \u201cchefe\u201d sobre argumentos para garantir uma pris\u00e3o. Isso aconteceu em 17 de dezembro de 2015, quando Moro informa que precisa de manifesta\u00e7\u00e3o do MPF no pedido de revoga\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o preventiva de Jos\u00e9 Carlos Bumlai, pecuarista e amigo de Lula. \u201cAte amanh\u00e3 meio dia\u201d, escreve. Dalla\u00adgnol garante que a a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 feita e acrescenta: \u201cSeguem algumas decis\u00f5es boas para mencionar quando precisar prender algu\u00e9m\u2026\u201d. \u00c0&nbsp;luz do direito, \u00e9 t\u00e3o constrangedor quanto se Cristiano Zanin Martins fosse flagrado passando a Moro argumentos para embasar um habeas\u00ad-corpus a favor de Lula.<\/p>\n<p>Mesmo entre parceiros com bastante afinidade h\u00e1 momentos de tens\u00e3o (e que precisam ser resolvidos com uma conversa ao vivo). Em um deles, ocorrido em um chat de 17 de novembro de 2015, Moro d\u00e1 um pux\u00e3o de orelha em Dalla\u00adgnol. O juiz reclama de que est\u00e1 dif\u00edcil entender os motivos pelos quais o MPF recorreu da senten\u00e7a aplicada aos delatores Augusto Ribeiro de Mendon\u00e7a Neto, Pedro Jos\u00e9 Barusco Filho, M\u00e1rio Frederico Mendon\u00e7a G\u00f3es e J\u00falio Gerin de Almeida Camargo. Dalla\u00adgnol tenta se justificar, sem sucesso. \u201cO mp est\u00e1 recorrendo da fundamenta\u00e7\u00e3o, sem qualquer efeeito pratico\u201d, critica o juiz. \u201cNa minha opini\u00e3o estao provocando confus\u00e3o.\u201d Para Moro, o efeito pr\u00e1tico do recurso apresentado pelo MPF ser\u00e1 \u201cjogar para as calendas a exist\u00eancia execu\u00e7\u00e3o das penas dos colaboradores\u201d, ou seja, postergar\u00e1 o in\u00edcio do cumprimento da pena aplicada aos delatores citados. Mais uma vez, tudo fora dos autos. Dalla\u00adgnol, resignado, pede um encontro com Moro para a manh\u00e3 do dia seguinte: \u201c25m seriam suficiente <em>(sic)<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Pe\u00e7as fundamentais na Lava-\u00adJato, as dela\u00e7\u00f5es exigem tamb\u00e9m que o juiz se comporte de forma imparcial e somente ap\u00f3s as negocia\u00e7\u00f5es, conduzidas pelo MPF, pois ao fim do processo caber\u00e1 a ele decidir se aceita ou n\u00e3o a oferta. Nesse cap\u00edtulo, Moro cruzou igualmente a linha, a exemplo do caso do ex-deputado Eduardo Cunha. Na noite de 12 de junho de 2017, Ronaldo Queiroz, procurador da for\u00e7a-tarefa da Lava-Jato na PGR, cria um grupo no Telegram com Dalla\u00adgnol para avisar que foi procurado pelo advogado de Cunha para iniciar uma negocia\u00e7\u00e3o de dela\u00e7\u00e3o premiada. Queiroz afirma que as revela\u00e7\u00f5es poderiam ser de interesse dos procuradores de Curitiba, Rio de Janeiro e Natal, onde corriam a\u00e7\u00f5es relacionadas ao pol\u00edtico. Ap\u00f3s membros do Rio de Janeiro serem inclu\u00eddos no grupo, Queiroz posta uma mensagem que d\u00e1 uma ideia de sua vis\u00e3o de mundo sobre a quantidade de honestos na Justi\u00e7a e na pol\u00edtica (uma vis\u00e3o de mundo compartilhada por muitos de seus colegas da Lava-Jato). Queiroz afirma esperar que Cunha entregue no Rio de Janeiro, pelo menos, um ter\u00e7o do Minist\u00e9rio P\u00fablico estadual, 95% dos ju\u00edzes do Tribunal da Justi\u00e7a, 99% do Tribunal de Contas e 100% da Assem\u00adbleia Legislativa<\/p>\n<p>No dia 5 de julho, durante o per\u00edodo da tarde, os procuradores concordam em marcar uma reuni\u00e3o com o advogado D\u00e9lio Lins e Silva J\u00fanior para a ter\u00e7a-\u00adfeira seguinte (11 de julho). Naquele mesmo dia, \u00e0s 23h11, em uma conversa privada, Moro questiona Dalla\u00adgnol sobre rumores de uma dela\u00e7\u00e3o de Cunha. \u201cEspero que n\u00e3o procedam\u201d, diz. Dalla\u00adgnol afirma que tudo n\u00e3o passa de rumores. Ele confirma ao juiz que est\u00e1 programado apenas um encontro com o advogado para que os procuradores tomem conhecimento dos anexos. \u201cAcontecer\u00e1 na pr\u00f3xima ter\u00e7a. estaremos presentes e acompanharemos tudo. Sempre que quiser, vou te colocando a par\u201d, afirma. Moro, ent\u00e3o, reitera seu posicionamento. \u201cAgrade\u00e7o se me manter (sic) informado. Sou contra, como sabe.\u201d Detalhe: isso sem saber o conte\u00fado.<\/p>\n<p>Como a proposta de dela\u00e7\u00e3o atingia pol\u00edticos com foro privilegiado, a palavra final para assinar um acordo de dela\u00e7\u00e3o com Cunha passou para a PGR. A&nbsp;homologa\u00e7\u00e3o competia ao ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava\u00ad-Jato no STF. O ex-deputado corria na \u00e9poca para fechar um acordo antes de o doleiro L\u00facio Bolonha Funaro assinar os termos de sua dela\u00e7\u00e3o. Os procuradores envolvidos nas negocia\u00e7\u00f5es diziam que a dupla falava sobre os mesmos temas, o que tornaria desnecess\u00e1ria a aprova\u00e7\u00e3o das duas colabora\u00e7\u00f5es. No dia 28 de julho, j\u00e1 com os anexos de Cunha em m\u00e3os, Ronaldo Queiroz diz que a ideia \u00e9 analis\u00e1-\u00adlos em conjunto com os colegas para tomar uma decis\u00e3o sobre aceitar ou rejeitar a dela\u00e7\u00e3o. Em 30 de julho, Queiroz diz que o material \u00e9 fraco. No dia seguinte, uma mensagem do procurador Orlando SP, provavelmente Orlando Martello J\u00fanior, traz o posicionamento de Curitiba \u2014 o mesmo de Moro: \u201cAchamos que o acordo deve ser negado de imediato\u201d.<\/p>\n<p>O papel de l\u00edder da Lava-Jato em Curitiba \u00e9 exercido em diversas oportunidades pelo ex-juiz. Em mais de uma ocasi\u00e3o, Moro aparece nos chats do Telegram interferindo na agenda dos procuradores da for\u00e7a-tarefa, outra atitude que gera a suspei\u00e7\u00e3o de qualquer magistrado. Em 7 de julho de 2015, por exemplo, um membro da for\u00e7a-tarefa, que a reportagem de VEJA identificou ser o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, escreve o seguinte: \u201cIgor. O Russo (Moro) sugeriu a opera\u00e7\u00e3o do professor para a semana do dia 20\u201d. Igor (o delegado da Pol\u00edcia Federal Igor Rom\u00e1rio) responde: \u201cOpa\u2026 beleza\u2026 Vou come\u00e7ar a me organizar\u201d. De acordo com a apura\u00e7\u00e3o da revista, o \u201cprofessor\u201d era o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, da Eletronuclear. Ele acabou sendo preso no dia 28. Em outro epis\u00f3dio, Moro n\u00e3o apenas sugere uma data para a opera\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m j\u00e1 fala em receber a den\u00fancia. O caso em quest\u00e3o aparece em um di\u00e1logo ocorrido em 13 de outubro de 2015. Nele, o procurador Paulo Galv\u00e3o, o PG, alerta Roberson Pozzobon, seu colega da for\u00e7a-\u00adtarefa, sobre uma orienta\u00e7\u00e3o do juiz. \u201cEstava lembrando aqui que uma opera\u00e7\u00e3o tem que sair no m\u00e1ximo at\u00e9 por volta de 13\/11, em raz\u00e3o do recesso e do pedido do russo (Moro) para que a den\u00fancia n\u00e3o saia na \u00faltima semana\u201d, escreve PG. \u201cAp\u00f3s isso, vai ficar muito apertado para denunciar.\u201d Pozzobon concorda com PG e acrescenta: \u201cuma grande opera\u00e7\u00e3o por volta desta data seria o ideal. Ainda \u00e9 pr\u00f3ximo da proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica. rsrs\u201d.<\/p>\n<p>A partir de um levantamento das opera\u00e7\u00f5es ocorridas em novembro e das den\u00fancias oferecidas em dezembro de 2015, chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que o di\u00e1logo trata da Opera\u00e7\u00e3o Passe Livre, que prendeu Jos\u00e9 Carlos Bumlai. Ele atuou como laranja do PT, intermediando um empr\u00e9stimo de 12 milh\u00f5es de reais do Banco Schahin ao partido em 2004. O pedido de Moro comentado na conversa entre PG e Pozzobon acabou cumprido \u00e0 risca. Bumlai foi preso em 24 de novembro e denunciado em 14 de dezembro \u2014 na \u00faltima semana antes do recesso da Justi\u00e7a Federal do Paran\u00e1. No dia seguinte, Moro recebeu a den\u00fancia, a tempo de impedir que os crimes prescrevessem no fim de 2015.<\/p>\n<p>Dentro de uma vis\u00e3o simplista, a estrat\u00e9gia parece um golpe de mestre do juiz para n\u00e3o deixar um bandido escapar da Justi\u00e7a. Mas o argumento de que os fins justificam os meios n\u00e3o pode prosperar numa sociedade desenvolvida. Tal postura de Moro viola o devido processo legal, pondo em risco o estado de direito. \u201cNesse caso, a sociedade pode aplaudir o juiz, por acreditar que ele est\u00e1 tentando ser justo. Mas ele est\u00e1 infringindo as leis do processo, que o impedem de imiscuir-se em uma das partes e colaborar com ela, e \u00e9 uma das garantias para que todos sejam julgados da mesma forma\u201d, afirma um juiz, que pediu para n\u00e3o ser identificado. \u201cImagine que todos os magistrados atuem da mesma forma, infringindo uma regra aqui e outra ali para alcan\u00e7ar seus objetivos. Um pode se aliar \u00e0 defesa para soltar um criminoso; outro pode se aliar \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o para perseguir um inimigo e, a\u00ed, o c\u00e9u \u00e9 o limite\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Uma das obsess\u00f5es de Moro envolvia manter os casos da Lava-Jato em seu poder em Curitiba, a exemplo dos processos de Lula do tr\u00edplex do Guaruj\u00e1 e do s\u00edtio de Atibaia. Nesse esfor\u00e7o, o magistrado mentiu a um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) ou, na hip\u00f3tese mais benigna, ocultou dele uma prova importante, conforme mostra um dos di\u00e1logos. A conversa em quest\u00e3o se refere ao caso de Fl\u00e1vio David Barra, preso em 28 de julho de 2015, quando presidia a AG Energia, do grupo Andrade Gutierrez. Sua deten\u00e7\u00e3o ocorreu na Opera\u00e7\u00e3o Radioatividade, relacionada a pagamentos de propina feitos por empreiteiras, entre elas a Andrade Gutierrez, a Othon Luiz Pinheiro da Silva, da Eletronuclear, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da usina nuclear Angra 3. Em 25 de agosto, a defesa de Barra pede ao ministro do STF Teori Zavascki a suspens\u00e3o do processo tocado pela 13\u00aa Vara de Curitiba, alegando que Moro n\u00e3o tinha compet\u00eancia para julgar o caso por haver ind\u00edcio de envolvimento de parlamentares, entre eles o ent\u00e3o senador Edison Lob\u00e3o (MDB-MA).<\/p>\n<p>Diante da reclama\u00e7\u00e3o, Zavascki cobra explica\u00e7\u00f5es de Moro, que diz n\u00e3o saber nada sobre o envolvimento de parlamentares. Mesmo assim, com base nas informa\u00e7\u00f5es da defesa, o ministro do STF suspende em 2 de outubro as investiga\u00e7\u00f5es, o que for\u00e7a o ent\u00e3o juiz a remeter o caso de Curitiba para Bras\u00edlia tr\u00eas dias depois. Seu comportamento perante Zavascki foi impr\u00f3prio, como evidencia um di\u00e1logo registrado no Telegram dezoito dias depois entre o procurador Athayde Ribeiro Costa e a delegada Erika Marena, da Pol\u00edcia Federal. Costa diz precisar com urg\u00eancia de uma \u201cplanilha\/agenda\u201d apreendida com Barra que descreve pagamentos a diversos pol\u00edticos. Marena responde que, por orienta\u00e7\u00e3o de \u201crusso\u201d (Moro), n\u00e3o tinha tido pressa em \u201ceprocar\u201d a planilha (tradu\u00e7\u00e3o: protocolar o documento no sistema eletr\u00f4nico da Justi\u00e7a). \u201cAcabei esquecendo de eprocar\u201d, disse. \u201cVou fazer isso logo\u201d, completa.<\/p>\n<p>Na pior das hip\u00f3teses, Moro j\u00e1 sabia da exist\u00eancia da planilha quando foi inquirido por Zavascki e mentiu ao ministro. Em um segundo poss\u00edvel cen\u00e1rio, igualmente comprometedor, Moro teria tomado conhecimento da planilha depois da inquiri\u00e7\u00e3o de Zavascki e pediu \u00e0 delegada para \u201cn\u00e3o ter pressa\u201d em protocolar o documento. Tudo indica que a manobra tinha como objetivo manter o caso em Curitiba. \u201cUm juiz n\u00e3o pode ocultar provas, e, se o di\u00e1logo tiver a autenticidade comprovada, estamos diante de uma conduta bastante problem\u00e1tica\u201d, afirma o advogado Gustavo Badar\u00f3, professor de processo penal da USP, que analisou a pedido de VEJA o epis\u00f3dio. Na primeira leva de mensagens divulgadas pelo Intercept no m\u00eas passado, Moro j\u00e1 aparecia reclamando de um delegado da PF que havia inclu\u00eddo r\u00e1pido demais todos os elementos da investiga\u00e7\u00e3o no sistema eletr\u00f4nico, o que obrigaria o juiz a enviar parte do processo ao STF.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre Moro e Dalla\u00adgnol era t\u00e3o pr\u00f3xima que abre espa\u00e7o para que eles comemorem nas conversas o sucesso de algumas etapas da Lava\u00ad-Jato, como se fossem companheiros de trabalho festejando metas alcan\u00e7adas. Em 14 de dezembro de 2016, Dallagnol escreve ao parceiro para contar que a den\u00fancia de Lula seria protocolada em breve, enquanto a de S\u00e9rgio Cabral j\u00e1 seria registrada no dia seguinte (o que de fato ocorreu). Moro responde com um emoticon de felicidade, ao lado da frase: \u201c um bom dia afinal\u201d. A proximidade rendeu ainda lances curiosos. Em 9 de julho de 2015, Dallagnol sa\u00fada o colega: \u201cbem vindo ao telegram!!\u201d. Cinco meses depois, d\u00e1 dicas ao juiz de como usar o programa no desktop, enviando no chat um link para o download. \u201cSe puder me mandar no e-mail, agrade\u00e7o. O tico e o teco da inform\u00e1tica aqui n\u00e3o s\u00e3o muito espertos\u201d, responde Moro. Em mar\u00e7o de 2017, Dallagnol escreve ao juiz para tirar uma d\u00favida: ele assina o primeiro nome com ou sem acento? O motivo \u00e9 que o procurador estava revisando um livro sobre Moro. \u201cN\u00e3o uso normalmente o acento\u201d, responde o juiz. Em julho de 2018, Dallagnol atua como assessor de imprensa, perguntando a Eduardo El Hage, um colega do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal no Rio, detalhes de um pedido de participa\u00e7\u00e3o de Moro em um programa do canal fechado HBO: \u201cEles contataram o Moro aqui e ele queria ter o contexto e informa\u00e7\u00f5es que possam ser \u00fateis pra ele decidir se atende\u201d. Em um dos per\u00edodos mais tensos da opera\u00e7\u00e3o, o que se seguiu \u00e0 a\u00e7\u00e3o do juiz que torna p\u00fablico o famoso trecho do grampo telef\u00f4nico em que Dilma Rousseff envia o \u201cBessias\u201d para entregar a Lula o termo de posse em seu minist\u00e9rio, Dallagnol combina em um dos chats com procuradores uma nota de apoio a Moro e repassa ao grupo uma sugest\u00e3o do pr\u00f3prio juiz para o texto. Na mesma \u00e9poca, Moro tamb\u00e9m recebe um afago e conselho de um interlocutor no Telegram (tudo indica, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima). \u201cO movimento seria nas sombras, como voc\u00ea mesmo disse\u201d, escreve, referindo-se ao convite de Dilma para Lula. \u201cO seu capital junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o vai proteger durante um tempo. As coisas se transformam muito r\u00e1pido.\u201d<\/p>\n<div class=\"content-image aligncenter wp-caption\">\n<div class=\"image\">\n<p>As conversas entre membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal assumem v\u00e1rias vezes o tom de arquibancada, com os membros da for\u00e7a-tarefa vibrando e torcendo a cada lance da batalha contra os inimigos. Em 13 de julho de 2015, Dallagnol sai exultante de um encontro com o ministro Edson Fachin e comenta com os colegas de MPF: \u201cCaros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin \u00e9 nosso\u201d. A preocupa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a-tarefa com a comunica\u00e7\u00e3o para a opini\u00e3o p\u00fablica era constante. Em 7 de maio de 2016, Moro comenta com Dalla\u00adgnol que havia sido procurado pelo apresentador Fausto Silva. Segundo o relato do juiz, o apresentador o cumprimentou pelo trabalho na Lava-Jato, mas deu um conselho: \u201cEle disse que vcs nas entrevistas ou nas coletivas precisam usar uma linguagem mais simples. Para todo mundo entender. Para o pov\u00e3o. Disse que transmitiria o recado. Conselho de quem est\u00e1 a<em> (sic)<\/em> 28\/anos na TV. Pensem nisso\u201d. Procurado por VEJA, Fausto Silva confirmou o encontro e o teor da conversa entre ele e Moro.<\/p>\n<p>Curiosidades dos bastidores \u00e0 parte, o que vai definir mesmo o destino de Moro \u00e0 luz das revela\u00e7\u00f5es dos chats s\u00e3o os trechos nos quais fica evidente seu papel duplo de juiz e assistente de acusa\u00e7\u00e3o. A Lava-Jato foi assumidamente inspirada na Mani Pulite, a M\u00e3os Limpas da It\u00e1lia, que desbaratou um gigantesco esquema de corrup\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 90, resultando em 2\u2009993 mandados de pris\u00e3o nos dois primeiros anos de opera\u00e7\u00e3o. No caso do sistema de Justi\u00e7a do pa\u00eds europeu h\u00e1 a figura do magistrado que trabalha no Minist\u00e9rio P\u00fablico \u2014 mas ele n\u00e3o atua nos julgamentos. A&nbsp;melhor explica\u00e7\u00e3o para o comportamento irregular do atual ministro \u00e9 que ele tenha se inspirado nessa figura para pautar suas a\u00e7\u00f5es na Lava-Jato. \u201cO Moro confundiu totalmente os pap\u00e9is\u201d, afirma o jurista W\u00e1lter Fanganiello Maiero\u00advitch. \u201cO magistrado que investiga nunca \u00e9 o que julga, nem na It\u00e1lia nem em nenhuma outra democracia do planeta.\u201d<\/p>\n<p>No Brasil, o papel duplo do juiz viola o artigo 254 do C\u00f3digo de Processo Penal, que pro\u00edbe que o magistrado aconselhe uma das partes ou tenha interesse em favor da acusa\u00e7\u00e3o ou da defesa. Essa atua\u00e7\u00e3o pode, de fato, provocar a revis\u00e3o de atos de Moro. No caso da condena\u00e7\u00e3o de Lula, por exemplo, o STF adiou a discuss\u00e3o para agosto. Ser\u00e1 uma decis\u00e3o complexa e delicada para a Suprema Corte. Ali, mesmo que alguns ministros j\u00e1 tenham criticado excessos da Lava-Jato, \u00e9 dif\u00edcil qualquer progn\u00f3stico. Um dado, por\u00e9m, \u00e9 certo. Fiscalizar o que Moro fez enquanto juiz n\u00e3o significa p\u00f4r em risco os avan\u00e7os contra a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil, como sugerem as manifesta\u00e7\u00f5es recentes nas ruas das cidades do pa\u00eds. A sociedade brasileira n\u00e3o vai abrir m\u00e3o do processo que resultou, pela primeira vez na hist\u00f3ria, na pris\u00e3o de pol\u00edticos e empres\u00e1rios poderosos.<\/p>\n<p>Embora as conversas mostrem que Moro cometeu infra\u00e7\u00f5es, os crimes punidos ao longo da Lava-Jato gozam de vasta cole\u00e7\u00e3o de provas materiais e orais. A maioria esmagadora das senten\u00e7as, ali\u00e1s, acabou confirmada em outras inst\u00e2ncias da Justi\u00e7a. Gra\u00e7as ao esfor\u00e7o dos procuradores de Curitiba, descobriu-se tamb\u00e9m o Setor de Opera\u00e7\u00f5es Estruturadas da Odebrecht, desenvolvido exclusivamente para administrar o pagamento de propinas efetuado pela empresa no Brasil e no exterior. O resultado pr\u00e1tico e sua import\u00e2ncia s\u00e3o incontestes. Diversos pol\u00edticos que se locupletaram nos \u00faltimos anos ainda est\u00e3o presos. Entre eles, Lula, S\u00e9rgio Cabral, Eduardo Cunha\u2026 O pr\u00f3prio Lula, mesmo que a suspei\u00e7\u00e3o de Moro seja confirmada, pode permanecer preso. Ele j\u00e1 foi condenado em primeira inst\u00e2ncia pelo s\u00edtio em Atibaia, senten\u00e7a proferida pela ju\u00edza Gabriela Hardt, e o caso aguarda apenas a decis\u00e3o do TRF4 (provavelmente favor\u00e1vel \u00e0 sua condena\u00e7\u00e3o). Portanto, n\u00e3o se trata aqui de uma defesa do Lula Livre nem de estar contra a Lava-Jato. Mas, sim, do direito inexor\u00e1vel que todos os cidad\u00e3os t\u00eam de um julgamento justo.<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a 2, Moro (que, por sinal, n\u00e3o faz mais parte da Lava-Jato) ficou sete horas no Congresso respondendo a parlamentares sobre o caso. Repetiu o que tem dito nas \u00faltimas semanas: os di\u00e1logos divulgados foram fruto de um roubo, podem ter sido editados e, mesmo verdadeiros, n\u00e3o apontam nenhum tipo de desvio. A cada nova revela\u00e7\u00e3o, fica mais dif\u00edcil sustentar esse discurso. Na senten\u00e7a em que condenou Lula, o ex\u00ad-juiz anotou que \u201cn\u00e3o importa qu\u00e3o alto voc\u00ea esteja, a lei ainda est\u00e1 acima de voc\u00ea\u201d. A frase cabe agora perfeitamente em sua situa\u00e7\u00e3o atual. Levado ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a para funcionar como uma esp\u00e9cie de esteio moral da gest\u00e3o Bolsonaro, ele ainda goza de grande popularidade, mas hoje depende do apoio do presidente para se manter no cargo. Independentemente do seu destino, o caso dos di\u00e1logos vazados representa uma oportunidade para que o pa\u00eds discuta os excessos da Justi\u00e7a e o fortalecimento dos direitos do cidad\u00e3o. Um pa\u00eds onde as institui\u00e7\u00f5es funcionam n\u00e3o precisa de nenhum Super-Homem.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n<ul class=\"wp-block-gallery columns-3 wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"798\" src=\"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/113549.jpg\" alt=\"\" data-id=\"32713\" data-link=\"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?attachment_id=32713\" class=\"wp-image-32713\" srcset=\"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/113549.jpg 300w, https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/113549-113x300.jpg 113w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption>autor: VEJA<\/figcaption><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"253\" height=\"1024\" 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