{"id":33271,"date":"2019-07-26T11:44:35","date_gmt":"2019-07-26T15:44:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/?p=33271"},"modified":"2019-07-26T12:45:20","modified_gmt":"2019-07-26T16:45:20","slug":"tribunal-absolveu-bolsonaro-contra-a-prova-afirma-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.corumbaonline.com.br\/news\/tribunal-absolveu-bolsonaro-contra-a-prova-afirma-livro\/","title":{"rendered":"Tribunal absolveu Bolsonaro contra a prova, afirma livro"},"content":{"rendered":"<p>Jair Bolsonaro foi eleito presidente sem que o Pa\u00eds conhecesse circunst\u00e2ncias sobre o mais grave epis\u00f3dio que marcou sua carreira militar e antecedeu sua entrada para a pol\u00edtica: o plano de explodir bombas em quart\u00e9is do Rio, em protesto contra os baixos soldos em 1987. Por essa acusa\u00e7\u00e3o, ele foi processado e absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) por 9 votos a 4. Caso encerrado? N\u00e3o. \u00c9 isso o que afirma o livro <em>O cadete e o capit\u00e3o<\/em>, do jornalista\u00a0<strong>Luiz Maklouf Carvalho<\/strong>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 32 anos, Maklouf conta que a an\u00e1lise das mais de\u00a0<strong>700 p\u00e1ginas do processo e dos 31 arquivos<\/strong>com as grava\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas da sess\u00e3o de julgamento revela como a decis\u00e3o dos ministros do STM contrariou os laudos grafot\u00e9cnicos existentes da principal prova do caso: as an\u00e1lises de quem seria o autor de um croqui sobre como fazer e onde colocar uma bomba. Para tanto, uma artimanha da defesa teria sido fundamental: dizer que existiam quatro laudos v\u00e1lidos em vez dos dois existentes.<\/p>\n<p class=\"text\">Al\u00e9m disso, o jornalista teve acesso aos \u00e1udios da sess\u00e3o do julgamento no STM. Em suas falas, os ministros desculpam o acusado e vilipendiam a revista\u00a0<em>Veja<\/em>\u00a0&#8211; respons\u00e1vel por revelar a hist\u00f3ria -, transformando-a mais em r\u00e9 aos olhos deles do que o capit\u00e3o. Da animosidade dos julgadores n\u00e3o escapou nem o ent\u00e3o ministro do Ex\u00e9rcito, Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, alvo de piadas e cr\u00edticas na sess\u00e3o. Fora ele quem havia submetido o caso de Bolsonaro ao STM.<\/p>\n<p class=\"text\">Duas vezes ganhador do pr\u00eamio Jabuti de reportagem, autor de livros e de textos que jogaram luz sobre as pr\u00e1ticas do PT e de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, Maklouf fez mais uma vez o que se tornou a marca de sua carreira: enxergar o que todos olham, mas ningu\u00e9m v\u00ea, e prestar aten\u00e7\u00e3o no que ningu\u00e9m escuta. Formado em direito, este jornalista abriu as p\u00e1ginas do processo e as leu. Obteve os \u00e1udios do julgamento e os ouviu.<\/p>\n<p class=\"text\">Sempre escrevera at\u00e9 ent\u00e3o a vers\u00e3o que predominava no processo, aquela da ementa do caso, o resumo da decis\u00e3o publicada pelos magistrados. Ela descrevia a exist\u00eancia de quatro laudos grafot\u00e9cnicos: dois condenavam o r\u00e9u e dois o absolviam. Portanto, a d\u00favida impunha a absolvi\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o. N\u00e3o era bem assim. Maklouf descreve no livro que, ao contr\u00e1rio do que sempre disse o presidente e do que anotaram os ministros no ac\u00f3rd\u00e3o, n\u00e3o havia nenhum laudo que inocentasse o acusado.<\/p>\n<p class=\"text\">Antes de seguir adiante, \u00e9 necess\u00e1rio recontar a hist\u00f3ria, ainda que ela seja bastante conhecida. Em 1986, Bolsonaro escreveu um artigo na\u00a0<em>Veja<\/em>\u00a0com o t\u00edtulo\u00a0<em>O sal\u00e1rio est\u00e1 baixo<\/em>. Foi punido pelo Ex\u00e9rcito com 15 dias de pris\u00e3o. Em 28 de outubro de 1987, uma reportagem na mesma revista revelava a exist\u00eancia da\u00a0<strong>Opera\u00e7\u00e3o Beco Sem Sa\u00edda<\/strong>, o plano de militares da Escola de Aperfei\u00e7oamento de Oficiais (EsAO) de explodir bombas em unidades militares em protesto contra os baixos sal\u00e1rios. Bolsonaro era um dos acusados do plano. Primeiro, os oficiais negaram e receberam o apoio do ministro do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"text\">A revista publicou as provas que tinha &#8211; o livro mostra de forma in\u00e9dita os bastidores que levaram \u00e0 publica\u00e7\u00e3o do caso -, entre elas um croqui explicando como seria f\u00e1cil p\u00f4r uma bomba na adutora do Guandu, do sistema de abastecimento de \u00e1gua do Rio. O documento, dizia a revista, era de autoria de Bolsonaro. O general Le\u00f4nidas determinou que ele fosse submetido a Conselho de Justifica\u00e7\u00e3o e afirmou que havia errado ao acusar a revista, pois Bolsonaro \u00e9 que havia mentido. Por 3 a 0, o conselho julgou o capit\u00e3o culpado.<\/p>\n<h2 class=\"text\"><strong>Mudan\u00e7a<\/strong><\/h2>\n<p class=\"text\">Como o veredicto mudou? Maklouf mostra que tudo come\u00e7ou quando Bolsonaro apresentou sua defesa por escrito ao STM. Ele relacionou todos os exames grafot\u00e9cnicos omitindo v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es. O primeiro exame, por exemplo, era inconclusivo apenas pela forma como fora feito. Os peritos usaram c\u00f3pias x\u00e9rox, o que torna invi\u00e1vel a per\u00edcia, que exige o uso dos originais escritos. O outro laudo que Bolsonaro alegava favorec\u00ea-lo nem mesmo existia. Na verdade, o primeiro exame inconclusivo por falta de material adequado para an\u00e1lise foi complementado e o resultado mudou.<\/p>\n<p class=\"text\">Depois que o material foi providenciado, os peritos do Ex\u00e9rcito chegaram \u00e0 mesma conclus\u00e3o que os peritos da Pol\u00edcia Federal: o croqui fora feito por Bolsonaro. A revista falara a verdade; Bolsonaro faltou com ela. Maklouf procurou por seis meses Bolsonaro em busca de explica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foi atendido. O\u00a0<strong>Estado<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m o procurou. N\u00e3o obteve resposta da assessoria do Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<h2><strong>Ministros acusam imprensa e criticam general<\/strong><\/h2>\n<p class=\"text\">A acusa\u00e7\u00e3o contra Jair Bolsonaro era assinada por tr\u00eas coron\u00e9is: &#8220;Os laudos do Ex\u00e9rcito e da Pol\u00edcia Federal atestam n\u00e3o restar d\u00favidas ao ser afirmado que os manuscritos contidos nessa folha original promanaram do punho gr\u00e1fico do capit\u00e3o&#8221;. Eles conclu\u00edram que ele mentiu no processo e revelou &#8220;comportamento a\u00e9tico e incompat\u00edvel com o pundonor militar e com o decoro da classe&#8221;. A defesa alegava que os coron\u00e9is \u00e9 que deveriam ser punidos.<\/p>\n<p class=\"text\">Foi nesse ponto que entrou em cena no Superior Tribunal Militar o ministro general\u00a0<strong>S\u00e9rgio de Ary Pires<\/strong>, relator do caso. Em seu voto, acusou a revista\u00a0<em>Veja<\/em>\u00a0de distorcer os fatos e incorporou a vers\u00e3o dos quatro laudos, absolvendo o capit\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"text\">O ministro\u00a0<strong>Aldo da Silva Fagundes<\/strong>\u00a0tra\u00e7ou um perfil psicol\u00f3gico de Bolsonaro. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil concluir pela insanidade mental desse homem. Seria um radical, interessado em subverter a ordem p\u00fablica, um terrorista, enfim? Muito dif\u00edcil.&#8221; Disse estar convencido de que o comportamento do acusado era marcado pelo deslumbramento com a fama. E o absolveu.<\/p>\n<p class=\"text\">Seguiu-se ataque \u00e0\u00a0<em>Veja<\/em>\u00a0e \u00e0 jornalista Cassia Maria, que fez a reportagem. Ap\u00f3s contar piada sobre o ministro do Ex\u00e9rcito, Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, o ministro brigadeiro\u00a0<strong>George Belham da Motta<\/strong>\u00a0disse que a revista n\u00e3o era digna de respeito.<\/p>\n<p class=\"text\">O ministro general\u00a0<strong>Alzir Chaloub<\/strong>\u00a0afirmou que a culpa de Bolsonaro foi ter mantido contatos com uma criatura (a jornalista) pouco recomend\u00e1vel. Chamou-a de venenosa, perigosa e a comparou a uma cascavel: &#8220;Rep\u00f3rter n\u00e3o \u00e9 flor que se cheire&#8221;.<\/p>\n<p class=\"text\">O relator do caso retomou a palavra e deu sua opini\u00e3o sobre a\u00a0<strong>fam\u00edlia Civita<\/strong>, ent\u00e3o dona da revista. &#8220;Me disseram que s\u00e3o judeus internacionais argentinos em busca de dinheiro. Outros dizem que s\u00e3o comunistas internacionais a servi\u00e7o da subvers\u00e3o.&#8221; E concluiu: &#8220;N\u00e3o posso formar um ju\u00edzo temer\u00e1rio, mas posso afirmar que h\u00e1 d\u00favidas quanto \u00e0 idoneidade dessa gente&#8221;. E chamou a rep\u00f3rter de &#8220;famigerada&#8221;.<\/p>\n<p class=\"text\">Poucos foram os magistrados duros com Bolsonaro. Entre eles estava um general:\u00a0<strong>Haroldo Erichsen da Fonseca<\/strong>, que o condenou: &#8220;N\u00e3o cabe ao capit\u00e3o tomar para si os problemas do alto escal\u00e3o&#8221;. E contou o que imaginava ser o pensamento de Bolsonaro: &#8220;Quem sabe eu possa ser amanh\u00e3 um indiv\u00edduo not\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jair Bolsonaro foi eleito presidente sem que o Pa\u00eds conhecesse circunst\u00e2ncias sobre o mais grave epis\u00f3dio que marcou sua carreira militar e antecedeu sua entrada para a pol\u00edtica: o plano de explodir bombas em quart\u00e9is do Rio, em protesto contra os baixos soldos em 1987. 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