A produtividade tóxica está em alta. Não é difícil rolar o feed e ver um post insinuando que devemos nos cobrar menos, “pegar leve consigo mesmo”. E aqui vai um artigo de ‘autocrítica’: tenho encontrado falhas no meu processo de produção para este jornal.
Quando entro no Google e pesquiso pelo termo “produtividade tóxica”, ele me dá uma pesquisa preguiçosa (mas que quebra muito o galho) de ‘visão geral criada por IA’ dizendo o seguinte: “é a obsessão insalubre por ser produtivo o tempo todo, priorizando o trabalho sobre a saúde física e mental. Caracteriza-se pela necessidade constante de realizar tarefas”. A urgência constante de realizar tarefas me chama atenção, diz sobre a produtividade em um contexto diferente e acredito que aqui entra o termo tóxico.
À esta urgência/necessidade costumo dar o nome de: não saber o que fazer com o tédio.
Entramos numa onda de produção tão elevada que não se sabe o que fazer com as mãos quando estão vazias. É preciso ganhar likes – e para isso produzir conteúdo- e também deslizar a tela até que isso passe a incomodar os dedos. E pobre de nós adultos que não temos nossos controles bem definidos e sabemos do poder que extrapolar em tudo isso nos dará algum pobre prazer.
Quando as mãos estão vazias, o que emerge não é apenas o tédio, mas a angústia do encontro com o próprio eu.
Produzir torna-se uma forma de silenciar o que o nosso inconsciente teria a dizer se parássemos por um instante.
Essa urgência em fazer algo revela uma defesa contra o vazio. É preciso ter a capacidade de estar só, suportar a própria companhia sem a necessidade de estímulos externos constantes. É curioso que quem fala sobre a capacidade de estar só é um psicanalista/pediatra D. Winnicott, ele diz que é um marco no desenvolvimento emocional. É o estar só na presença de alguém, quando a criança pode se desenvolver nesse espaço. Como diz a escritora Lya Luft, “infância é o chão que a gente pisa a vida inteira”.
Esse deslizar de tela que mencionei, funciona como um circuito pulsional repetitivo. Buscamos um objeto de satisfação que nunca se completa, uma promessa de preenchimento que apenas nos mantém ocupados o suficiente para não sentirmos a falta que nos constitui. A produtividade tóxica é uma tentativa desesperada de negar nossos próprios limites, a aceitação de que somos falhos e de que nem todo tempo precisa ser “útil” para ser vivido.
Talvez a minha interrupção no ritmo de escrita seja um lembrete de que o ser humano não é uma máquina de performance ininterrupta. Mas para além disso, aceitar a falta é abrir espaço para algo novo emergir, pro desejo acontecer.


