O corpo de Neymar sentiu a passagem dos anos, e isso é uma má notícia; a cabeça de Neymar não sentiu a passagem dos anos, e isso é uma notícia pior ainda.

A desavença entre o capitão do Santos e um garoto de 18 anos parece apaziguada. Em entrevistas depois do empate por 1 a 1 com o Recoleta, pela Sul-Americana, Neymar se desculpou publicamente, disse que se excedeu “um pouco”, e Robinho Jr admitiu ter levado um tapa no rosto, mas afirmou que o pedido de desculpas foi aceito. Eles se abraçaram depois do gol do camisa 10, vida que segue, beleza.

Aconteceu e foi mais uma polêmica para a longa coleção de Neymar na atrapalhada saga para conquistar um lugar na Copa do Mundo. Ela foi antecedida por xingamentos a torcedores, discussões com adversários, revoltas com árbitros e ausências em jogos decisivos – como contra o Mirassol, com a presença de Carlo Ancelotti no estádio, e contra o Flamengo no Maracanã.

Embora não concorde, acho razoável o argumento de que Neymar deveria estar entre os 26 convocados para ser uma espécie de carta mágica a ser sacada em momentos específicos na Copa do Mundo – para resolver um jogo com alguma jogada que só ele consegue fazer, para furar uma defesa com um daqueles passes que só ele consegue dar, para bater um pênalti decisivo. Mas esse cenário não é compatível com o comportamento do jogador.

Isso exigiria de Neymar, um astro desde adolescente, a aceitação de um papel secundário. Exigiria maturidade. Exigiria a postura diametralmente oposta daquela apresentada pelo jogador nas últimas semanas – e, bom, nos últimos meses, nos últimos anos, nas últimas décadas.

Por tudo isso, o maior argumento contra a convocação de Neymar é o próprio Neymar. Dentro de campo, ele vem evoluindo. Tem jogado com consistência pela primeira vez desde a terrível lesão nos ligamentos contra o Uruguai, em 2023. Soma cinco gols e três assistências em 12 partidas nesta temporada. Não tem um rendimento explosivo, não consegue melhorar significativamente o time do Santos, mas vai crescendo aos poucos.

Não seria um desempenho, porém, suficiente para justificá-lo na Copa se ele não fosse Neymar. Não estaríamos debatendo isso se não houvesse todo o lastro de uma carreira excepcional, de um talento brutal. Estamos falando do melhor jogador revelado no Brasil neste século, e é justo que os defensores de Neymar usem o histórico como argumento, mesmo que o presente nos mostre outro jogador.

Mas o sacrifício de se convocar um atleta fora das condições físicas exigidas por uma Copa do Mundo pede uma contrapartida clara – de liderança, de postura. E Neymar, preso ao comportamento do passado, se compra incapaz de oferecer isso.

Por GloboEsporte.com