Cobaias humanas

Ricardo Viveiros – jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de vários livros, entre os quais: “Justiça Seja Feita”, “A Vila que Descobriu o Brasil”, “Pelos Caminhos da Educação” e “O Poeta e o Passarinho”

A história, quando respeitada por quem a escreve, registra a verdade. Imaginar que ela possa servir apenas para perpetuar o que parece “bonito”, não é ético e, muito menos, contribui para a evolução da humanidade. Assim, temos fatos – e não versões deles – que nos permitem importantes transformações, mudanças. E para melhor.

Há muitos anos, tive o privilégio de conversar com um personagem da História que, por seus méritos, foi, até hoje, a única pessoa a conquistar o Prêmio Nobel duas vezes, em áreas distintas e sem dividir com ninguém, Química (1954) e Paz (1962). O norte-americano Linus Carl Pauling está entre os cientistas mais relevantes de todos os tempos. Com centenas de artigos e vários livros publicados, foi um dos pais da Química Quântica e da Biologia Molecular. Linus, morto em 1994, deixou brilhante obra científica, além de ter sido um respeitado ativista contra os testes nucleares.

Em 1986, durante um evento internacional pela paz, encontrei Linus Pauling. Tomei a liberdade de fazer uma pergunta de caráter pessoal. Indaguei a quem trazia no braço a marca do campo de concentração do nazismo, o motivo de não enterrar para sempre as barbáries cometidas contra o povo judeu. Linus, com suas faces rosadas e olhos vivos, com ternura na voz, disse-me: “Devemos lembrar sempre, para que não aconteça de novo.”

Em 1932, no condado de Macon, Alabama (EUA), 600 homens bem simples, de pouco estudo e posses, foram recrutados pelo governo federal para exames médicos. Mais da metade deles sofria de sífilis. O Departamento de Saúde Pública prometeu tratamento a todos que, então, receberam por anos seguintes apenas placebo. Nenhum dos homens foi corretamente medicado com penicilina, o tratamento para a doença. O Estado norte-americano queria pesquisar a doença.

Os homens eram, além de gente muito simples, todos negros. Foram vítimas de uma criminosa forma de obter cobaias humanas, sem falar de racismo. Como também o médico Josef Mengele, sob o comando de outro monstro, Adolf Hitler, usou o povo judeu para desumanos experimentos científicos.

No desenrolar da CPI da Covid no Senado Federal, ficaram evidentes indícios de que a Prevent Senior tratou com o “Kit Covid”, do Governo Federal, inúmeros pacientes da instituição, na sua grande maioria idosos. A Agência Nacional de Saúde Suplementar deixou claro que essas pessoas não eram informadas sobre que tratamento recebiam, muito menos suas famílias. E o pior, esse kit é comprovadamente ineficaz segundo a ciência; e, em alguns casos, até de risco.

Um dos pacientes já ganhou na Justiça, em primeira instância, processo acusando o hospital, da rede Prevent Senior, de irresponsabilidade no seu atendimento. Ele já havia atingido um nível de gravidade que exigia a internação em UTI, entretanto lhe trataram com cloroquina e o deixaram apenas na terapia semi-intensiva.

Como no tempo do nazismo e no episódio nos EUA, aqui também, em pleno século 21, há “cobaias humanas” – e sob o manto do negacionismo, da mentira, da crueldade. Até quando seguiremos testemunhando atrocidades assim, sob a falsa vaidade de afirmar que somos civilizados e desenvolvidos?

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